Desastres aéreos brasileiros são tema do primeiro livro de não-ficção do escritor carioca Ivan Sant’Anna
Tragédias sempre fazem sucesso. Tragédias aéreas sempre fazem muito sucesso. Num mesmo dia, podem ocorrer centenas de acidentes automobilísticos sem que ninguém fique perplexo. Mas se nesse mesmo dia acontecer um acidente aéreo, ocorre uma comoção coletiva.
Diante disso, surge uma pergunta: por que desastres aéreos comovem mais do que outros tipos de acidentes? Em seu novo livro, ‘‘Caixa-Preta’’, o escritor carioca Ivan Sant’Anna semeia algumas resposta à questão. Lançado pela Editora Objetiva, a obra narra três desastres aéreos brasileiros ocorridos em 1973, 1988 e 1989.
A partir de depoimentos dos sobreviventes, Ivan Sant’Anna reconstitui os acidentes de modo detalhado. O relato mais trágico é de 1973, quando um Boeing (RG-820) decolou do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, com destino a Orly, na França. Durante a viagem, algum passageiro jogou um toco de cigarro no lixo do banheiro. O fogo começou lento, sem que ninguém percebesse.
O avião, em chamas, com quase todos passageiros desmaiados pela fumaça e a falta de oxigênio, fez um pouso forçado um minuto antes de chegar ao destino. Pousou incendiado numa plantação de repolhos próxima. Dos 117 passageiros, apenas um conseguiu sair com vida. Dos 17 tripulantes, dez sobreviveram.
O segundo relato de ‘‘Caixa-Preta’’ narra o sequestro do avião VP-375 que fazia a ponte aérea Rio de Janeiro/Belo Horizonte em 1988. Tudo teve início quando o operário desempregado Raimundo Nonato, resolveu se vingar da política econômica brasileira. O grande culpado seria o então presidente José Sarney.
Com apenas um revólver, Nonato sequestrou o avião com um objetivo definido: jogá-lo sobre o Palácio do Planalto. Estava disposto a sacrificar a própria vida e levaria junto os quase cinquenta passageiros e tripulantes. Na operação, matou o co-piloto. Fez com que o avião voasse até ficar sem combustível, exigindo do piloto um pouso forçado, praticamente impossível.
O terceiro relato de Ivan Sant’Anna reconstitui o acidente ocorrido em 1989, com um avião que saiu de Marabá com destino a Belém. O que seria uma viagem de apenas uma hora, transformou-se num drama que se arrastou por três dias.
Ao decolar com dezenas de passageiros a bordo, o piloto realizou um erro de leitura de instrumentos, tomando uma direção diferente da prevista. Perdido, voou a esmo até o combustível esgotar. Foi obrigado a realizar um pouso forçado no meio da floresta do Xingu. Mortos e feridos, num período traumático, precisaram esperar três dias para o resgate.
‘‘Caixa-Preta’’ é o primeiro livro de não-ficção de Ivan Sant’Anna. Apaixonado por aviação e piloto amador, realiza um relato direto e ágil das tragédias aéreas. Deixa transparecer que os desastres são sedutores porque envolvem uma boa dose de aventura real, entre vida e morte, onde os limites do ser humano são colocados à prova. A reação de cada pessoa num desastre aéreo é maior do que o imaginado. A morte é o limite no qual tudo se revela.
O relato do autor é totalmente objetivo, ação sobre ação, sem grandes interpretações subjetivas. São raras as passagens em que faz uso da literatura para descrever os fatos. Uma delas, vale mencionar: ‘‘Com o emudecimento das turbinas, os passageiros agora podiam ouvir o assobio lamuriento do vento. Sentia-se, via-se, cheirava-se medo. O medo pairava no ar, entrava pelos poros. Uns descobriram que o medo se localizava no baixo abdômen. Outros, que o medo obstruía a garganta. Que o medo secava as bocas, que o medo soltava os esfíncteres, o mênstruo e as bexigas, que o medo corria pelas artérias, acelerava o coração, abafava o pulmão. Que o medo ia e voltava, em vagas. Medo. O medo do uivo do vento, do silêncio, do choro das crianças. O medo de que cada um daqueles sons, e aqueles sentimentos, fosse o último som, antes do clarão do cérebro explodindo, o último sentimento, antes da escuridão. Souberam que o medo parece uma besta à espreita, um gatilho clicando, uma luz se apagando, um rastilho correndo, um ferrão se fechando, um açoite estalando, uma mina desmoronando, calcanhares de botas batendo. O medo é um avião perdido na noite, os tanques vazios, as turbinas paradas, caindo.’’
‘‘Caixa-Preta’’ pode ser descrito como um relato escrito com adrenalina. O autor consegue realizar um narrativa sedutora, séria e responsável. Algo como um longa reportagem que a imprensa, pelo seu imediatismo, não consegue mais realizar. Ao mesmo tempo, sugere uma outra questão: até que ponto a adrenalina característica das tragédias possui a capacidade de se transformar em entretenimento?
Caixa-Preta – Relato de Três Desastres Aéreos Brasileiros – De Ivan Sant’Ana, Editora Objetiva, 328 páginas, R$ 29,90.

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