Terror com tendências psicológicas
Por enquanto são apenas pré-estréias, amanhã e quarta-feira em muitas salas espalhadas pelo país, Paraná inclusive. Mas a partir da próxima quinta, as entidades espectrais de ''Os Outros'' vão estar à solta em amplo circuito nacional. Quem não quiser esperar, pode ir antecipando o prazer de conferir o brilhante filme de Alejandro Amenábar e o certificado de atriz adulta para Nicole Kidman. Mas como entrada deste banquete do outro mundo, o espectador vai ter à disposição a partir de amanhã, exclusivamente em Londrina e em uma única sala, uma insólita experiência em terror: ''O Espinhaço do Diabo''(El Espinazo del Diablo), co-produção hispano-mexicana.
Espanha, fim dos anos 30. Carlos, garoto de 12 anos, é abandonado por seu tutor em um orfanato para órfãos da milícia republicana, uma isolada, imponente construção perdida na desértica planície peninsular. No centro do pátio, cravada na terra, uma bomba fascista não deflagrada. Dentro do edifício esconde-se uma série de relações viciadas entre os adultos que ali vivem, especialmente o quarteto central: a diretora Carmen (Marisa Paredes), um professor maduro, Casares (Federico Luppi), um porteiro agressivo e a jovem cozinheira Conchita. O novato Carlos logo enfrenta dura rivalidade com um adolescente hostil, líder natural dos outros internos. Sozinho neste universo fechado cujas normas desconhece e rodeado de outros garotos nas mesmas condições de abandono afetivo, Carlos vai aos poucos descobrindo o trágico segredo que domina o local. Diante dele começa aparecer a imagem de um menino cadavérico em busca de comunicação. Logo Carlos tem a certeza de que o sussurante espectro infantil de intenções nebulosas é o fantasma de um antigo aluno, Santi, desaparecido há tempos em circunstâncias misteriosas. Vingador, o espírito pretende utilizar o novo interno para cobrar velha e sangrenta dívida pendente com seu assassino. A reparação se cumprirá afinal, de maneira cruel, terrível e inesperada.
Na origem mais remota de ''El Espinazo del Diabo'' está a amizade entre os irmãos Almodóvar, Pedro e Agustin, e o diretor mexicano Guillerme del Toro. Em 93, durante o Festival de Miami, o trio decidiu juntar forças e um dia trabalhar juntos. Mas somente em 97 Del Toro teve em mãos uma história sobre um ato violento de que foi testemunha quando menino: ''Esta é uma história muito pessoal para mim, muito delicada para contar; vivi na própria carne quase todos os elementos ou os personagens que a compõem, os terrores noturnos, os corredores vazios, os amores velados, etc''. Ainda que a história original do diretor fosse ambientada durante a Revolução Mexicana, a entrada dos roteiristas Antonio Trashorras e David Muñoz e o fato de que o filme seria realizado na Espanha fizeram com que a trama tivesse como fundo a Guerra Civil.
''A Espinha do Diabo'' não esconde suas ambições de afrontar Hollywood, em recursos principalmente. Mas o confronto pára por aí , porque o talento fala mais alto e as diferenças - para melhor - surgem naturalmente. Da mesma forma como o iminente ''Los Otros'', não se trata somente de ''um filme de fantasmas'', casas assombradas na colina e outros desgastes. O que há é um uma narração de atmosferas, de inquietude, de medos confessados e outros nem tanto. Talvez o espectador se assuste bem mais diante da realidade do orfanato do que do próprio fantasma, ou tenha mais medo deste grupo de prisioneiros dentro dos muros e de si mesmos, medo diante do amor não correspondido que existe no triângulo envolvendo a diretora, o professor e o porteiro. Um conjunto de seres e idéias, mix heterogêneo de situações e complexos universos pessoais.
Seguindo os próprios passos de seus filmes anteriores, ''Cronos'' e ''Mimic'', Guillermo Del Toro promove em ''El Espinazo del Diablo'', com toque pessoal e talentoso, o encontro entre drama existencial, fenômeno sobrenatural e alegoria política. O resultado é o exame compacto, tensamente modulado, daquilo que chamamos de desespero e pavor. Do conjunto harmonioso, oferecido através de um estilo visual com frequência forte mas liricamente matizado, pode-se questionar sobre o vilão da história, muito conveniente como alvo carregado de vilania. Mas mesmo aqui o diretor tenta e consegue humanizar a brutalidade com nuances psicológicas. (C.E.L.J.)





