Território expandido, território ocupado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de abril de 2002
Rubens Pileggi<br>Especial para Folha 2 
Minha vizinha reformou sua casa e em lugar da grama e das árvores que tinham no quintal, colocou piso cerâmico. Não dá mais trabalho, ela diz, como quem pergunta: não ficou mais bonito?. Fui plantar umas sementes em uma data que cultivo algumas plantas e, quando voltei, o porteiro do prédio onde moro se assustou com a minha sujeira.
O que a vizinha fez, na verdade, urbanizando seu terreno, foi mostrar que a ocupação do solo revela uma mentalidade em que a noção de limpeza e higiene está a serviço de uma estética que tem no padrão de um gosto médico sua identificação mais imediata. Será que já se apercebeu que a temperatura do ambiente se elevou e que as pessoas, da rua, ouvem suas falas na cozinha, uma vez que o som corre agora livremente pelo espaço, sem amortecer-se?
Limpeza e ocupação de territórios possuem outros pontos em comum com a questão estética que vão além do gosto médico - aquela coisa de confundir a impregnação da cor da terra no corpo com sujeira. Ou asfalto com progresso. Estamos falando da questão securitária, isto é, da eliminação de riscos e possibilidades de outras experiências como forma de dar sentido à vida. Trocamos o contato com a terra por seguro de saúde, seguro contra roubo, seguro de vida. Com medo das doenças, da violência, da morte, as residências têm se transformado em bunkers, abrigos antinucleares, fortalezas, prisões. Ao se armar para se defender, a sociedade transformou a arquitetura e o urbanismo em caso de polícia, fechando os espaços e os enchendo de grades, trincos, muros. Lugares com cara de poucos amigos, concretamente ameaçadores.
E, para uma arquitetura policial, nada mais em conta do que um padrão estético baseado no gosto do advogado, com a justificativa de quem defende os direitos e as liberdades constitucionais. O resultado é uma decoração cafona e sem inventividade, feita para recobrir esses espaços ocupados, que se recusam a olhar o entorno. Sintoma de uma civilização incapaz de se pensar coletivamente.
Extrapolando a relação de vizinhança a outras questões que parecem distantes, como a ocupação da Palestina, a satanização do MST, ou a bancarrota da Argentina, notamos que elas fazem parte de uma mesma lógica que tem embutida em seu discurso essa idéia de uma política sanitária, de defecção daquilo que está atrapalhando a saúde dos bem nascidos.
A reação da cultura e da arte em face dessa situação, obviamente não deve ser panfletária - aos modos do realismo soviético - obviamente, mas é preciso considerar a realidade da produção em face do contexto que lhe garante existência e sentido, isto é, se ela pretende ser vigorosa e de acordo com o seu tempo, deve expandir-se (invadir, tomar, ocupar) através de outras áreas e fronteiras além dela mesma, sem deixar-se sujeitar pelo (mau) gosto dominante. Porque a questão da linguagem é ideológica, tanto quanto a colocação do piso da vizinha.
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