O cenário cinematográfico para Londrina está realmente efervescente para os próximos meses. Dois longa-metragens que abordam a história da cidade estarão sendo rodados em Londrina e região em 2002 e 2003. ''Gaijin 2'', de Tizuka Yamasaki, tem orçamento de R$ 9 milhões e deve ser rodado entre fevereiro e abril do ano que vem (leia matéria na página 8); e ''Terra Vermelha'', de Ruy Guerra, tem orçamento de R$ 3,1 milhões e deve ser rodado no primeiro semestre de 2003. Além dos longas, 13 projetos na área de cinema e vídeo foram inscritos na Lei de Incentivo à Cultura de Londrina para 2002. Isso não significa que todos serão rodados, pois ainda dependem da aprovação da comissão da Secretaria Municipal de Cultura de Londrina.
É a primeira vez que isso ocorre na cidade, opinião confirmada à Folha pelo prefeito Nedson Micheleti (PT): ''Certamente é um período histórico que vivemos com duas produções como essa em Londrina''. Ontem pela manhã, Nedson recebeu a diretora da Araucária Produções Artísticas, Cloris de Souza Ferreira, também responsável pelo Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba e pela produção de ''Terra Vermelha'', adaptação do romance homônimo do escritor londrinense Domingos Pellegrini. Com Cloris estavam o autor do romance, o diretor local da produção, Cléber Toffoli, e o secretário de cultura de Londrina, Bernardo Pellegrini.
Foi a primeira conversa de Cloris com o prefeito, o que acabou entusiasmando muito a produtora curitibana: ''Não imaginava que receberia um apoio tão imediato do prefeito. Ele foi muito rápido na resposta''. Nedson aprovou a iniciativa de criar uma escola técnica de cinema em Londrina, nos moldes das escolas de dança e de teatro que já existem: ''O Bernardo (Pellegrini) vem me falando disso desde o começo do ano. Com as oficinas do filme, poderemos iniciar esse projeto''.
O prefeito se refere às doze oficinas de cinema que Cloris pretende trazer a Londrina: ''Estaremos oferecendo oficinas de variadas atividades, desde o tratamento do roteiro, até captação de recursos, análises técnicas, iluminação, cenografia, preparação de atores, fotografia, direção''.
A primeira oficina a ser realizada em Londrina é a de tratamento de roteiro, prevista para ser realizada entre fevereiro e 30 de março de 2002, dividida em três módulos, com 20 horas cada. Poderão participar vinte alunos em cada módulo, com custo de R$ 150,00. Se um aluno quiser participar de mais de uma oficina, algum desconto pode ser estudado, antecipa Tóffoli, acrescentando que estar nas oficinas não significa necessariamente participar da produção do filme: ''A realização das oficinas é uma maneira indireta de os alunos participarem da produção. Eventualmente, alguns alunos poderão ser chamados para participar do projeto''.
O projeto da Araucária prevê a realização de 60 oficinas, divididas em 12 módulos. O custo seria de R$ 900 mil, já aprovados pela Lei Rouanet. Em relação aos R$ 3,1 milhões para a produção de ''Terra Vermelha'', Cloris aguarda uma resposta do Ministério da Cultura. O projeto foi inscrito na Lei do Audiovisual.
A escola técnica de cinema desejada por Cloris Ferreira e Nedson Micheleti iria funcionar no antigo prédio da Telepar, ao lado da Biblioteca Pública de Londrina. ''Queremos transformar esse prédio em um arquivo cinematográfico para a cidade, com muitas peças históricas''.
Cloris imagina uma escola mais voltada para a técnica cinematográfica, ''pois assim criaríamos mais empregos na cidade'', diferente de Tizuka, que, segundo Cloris, idealizou uma escola mais acadêmica: ''Nos econtramos em Curitiba e ela me falou sobre essa idéia de criar uma escola de cinema aqui''.
Outro apoiador do filme é o governo do Estado. Há alguns meses, o governador Jaime Lerner (PFL) disse que iria destinar recursos da Copel e da Sercomtel para a produção. Nedson aproveitou para esclarecer a produtora: ''Mas quem manda na Sercomtel sou eu'', lembrando que a Prefeitura de Londrina detém a maior parte das ações da empresa telefônica. Mesmo assim, o prefeito reiterou que a Sercomtel irá apoiar o filme, ''assim como vem apoiando outros projetos culturais na cidade''.
Cloris também sugeriu ontem a criação de um escritório local para a pré-produção do filme, nos moldes em que foi criado o escritório de ''Gaijin 2'', no barracão que a Sercomtel cedeu na Avenida Higienópolis. Entretanto, segundo a Folha apurou, o escritório de ''Gaijin 2'' deve ser tranferido para outro estabelecimento ainda não definido. O problema do barracão seria o excesso de goteiras, que acaba prejudicando os 10 mil figurinos lá armazenados.
''Terra Vermelha'', que já tem confirmada a direção de Ruy Guerra, o genial diretor de ''Os Fuzis'' e ''Os Cafajestes'', terá roteiro supervisionado por José Luiz Peixoto. O roteirista, aliás, conduziu uma oficina de 160 horas em 2000 para 20 alunos, criando o primeiro tratamento da versão cinematográfica do livro. Peixoto é professor de roteiro na Escola de Cinema de Cuba, uma das mais tradicionais do mundo, criada pelo escritor Gabriel Garcia Marquez, e que já contou com palestras de Stanley Kubrick. O produtor executivo do filme é o argentino Tito Ameijeiras, o mesmo de ''Navalha na Carne'', de Neville de Almeida.
A Araucária Produções Culturais foi criada em 1992 e já realizou cinco edições do Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba. Antes, Cloris era pianista e sempre ajudava o Festival de Música de Londrina em suas negociações para repasses do Estado. Nesses quase dez anos, foram produzidos dois curtas e dois média-metragens pela Araucária. Entre os curtas, dois filmes surgidos em oficinas: ''Eco'' (2000) e ''Retrato de Brenda'' (2001), ambos rodados em duas semanas iniciativa, segundo Cloris, inédita no País.
Em 2001, a Araucária produziu o curta ''Atrás da Fama'', rodado em Florianópolis (SC). No próximo ano, na ilha de Cruz e Souza, Cloris pretende produzir o longa ''Vestígios de Tempestade'', uma seleção de cinco contos do escritor catarinense Flávio Cardoso Gomes. Está programada em Florianópolis também a realização de um festival de documentários para 2002.
O escritor Domingos Pellegrini comemora as duas produções em Londrina. Para ele, a cidade ocupa um lugar único na história brasileira: ''Tivemos um convívio harmonioso entre várias etnias durante a colonização do norte do Paraná. Conviviam árabes, italianos, alemães, japoneses, tudo sem briga. No máximo prenderam um japonês ou outro e levaram para Curitiba''. Esse espírito se alia ao caráter pioneiro de Londrina, que já teve em sua história desde passeata de prostituas até rebeliões contra o (des)governo do Estado, complementa o escritor.
Enfim, os filmes irão retratar Londrina em sua essência - uma terra aberta a tudo que possa existir.

mockup