Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
‘‘Terra-Vermelha’’, o livro que Domingos Pellegrini lançou no final de 1998, traçando um painel dos desbravadores que fincaram raízes no norte paranaense e foram testemunhas do surgimento de Londrina, estará nas telas dos cinemas até 2003, no mais tardar. Os direitos autorais da obra para transposição em película acabam de ser adquiridos pela Araucária Produções Artísticas, de Curitiba.
A empresária Cloris de Souza Ferreira, dona da produtora, disse em entrevista exclusiva à Folha 2 que o filme será ‘‘um grande épico’’, retratando a luta de migrantes e imigrantes que deixaram tudo para trás e apostaram na agricultura cafeeira. ‘‘Vamos mostrar a saga do caf钒, afirmou. Se o projeto correr excepcionalmente bem, é possível que as filmagens comecem ainda no final deste ano. Porém, o mais provável é que isso aconteça em 2001. Obviamente as tomadas serão feitas na região de Londrina.
Com este projeto a empresa curitibana entra de vez no mundo do cinema. Há quatro anos ela produz o Festival de Cinema e Vídeo, e em 99 promoveu a primeira edição do Festival de Música de Câmara. Rodar o filme baseado em ‘‘Terra-Vermelha’’ é sua estréia no setor.
Cloris tem planos ambiciosos para o trabalho: ‘‘Vamos trazer técnicos reconhecidamente competentes, os equipamentos serão de ponta. Acabamos de assinar contrato com o roteirista José Luiz Peixoto, que está vindo de Cuba, onde dá aula de cinema. Ainda não definimos o diretor, mas a trilha sonora poderá ser de David Tigel’’.
Segundo a empresária, há dois anos ela tinha interesse em produzir um longa-metragem. No coquetel de lançamento do filme ‘‘Caminhos do Sonho’’, de Lucas Amberg, o governador Jaime Lerner comentou seu interesse em ver filmadas duas obras que se referiam ao Paraná: uma sobre o pintor Milhaud e ‘‘Terra-Vermelha’’, do escritor londrinense. Intrigada, Cloris de imediato comprou o livro, gostou muito do romance e ligou para Pellegrini.
A produtora quer realizar o trabalho seguindo caminhos não tradicionais. Ou seja, como a realização é paranaense, esse processo deverá contar também com o talento local. Não somente na frente das câmeras: ‘‘Quero um grande laboratório. Como vamos trazer para cá os melhores técnicos do mercado, aproveitaremos também os nossos. Aqueles alunos que há quatro anos fazem oficinas de formação, estarão trabalhando junto com os grandes’’.
Em fevereiro, Luiz Peixoto terá seu primeiro encontro com Pellegrini para começar o roteiro. Aproveitará a viagem para dar uma oficina aos futuros colegas, em Curitiba, na semana de 22 a 29. O curso terá 20 vagas, com carga horária de 30 horas. Os candidatos serão selecionados através de currículos.
Assim como haverá uma discussão ampla com esse pessoal sobre o roteiro – embora o definitivo leve a assinatura de Peixoto –, o mesmo acontecerá em outras áreas como a da produção, fotografia, som, direção de arte, edição. A empresária entende que só assim, através da experimentação e do contato direto com a atividade, é que ocorre a evolução. ‘‘Este filme está sendo pensado de uma forma coletiva, como um grande laboratório’’, afirma.
O filme está orçado em cerca de R$ 4 milhões. De acordo com as novas normas da Lei do Audiovisual, a Araucária terá direito de arrecadar até R$ 800 mil, por ser esta sua primeira produção. A saída para buscar recursos foi elaborar três tipos orçamentários: um de R$ 2,5 milhões, outro de R$ 1 milhão e o terceiro de R$ 800 mil. ‘‘Vamos tentar todas as possíveis verbas, tanto pelo Audiovisual, pelas doações e pela captação dos patrocinadores’’.
Cloris está confiante que tanto o poder público como o privado irão se sensibilizar com a proposta. Enfim, esta é uma indústria que gera empregos e dividendos. E toca numa questão que julga fundamental: ‘‘Temos que parar de pensar no cinema como arte, mas fazer o cinema com vistas para o comércio. Não um cinema comercial, corriqueiro, mas uma produção que realmente dê divisas monetárias, não só na área local, como também as de fora do País. Acredito que isso é um grande passo; os economistas e os industriais sabem do que estou falando’’.