Terra sangrenta
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de março de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Desorientando o espectador desde o princípio com uma narrativa não-linear e com flashes subjetivos da memória da personagem principal, a proposta do longa ''Minha Terra, África'' (White Material, 2009) parece ser o de propiciar uma visão particular do desenvolvimento de uma guerra étnica - retratada em um país africano que nunca é revelado o nome.
Assombrado por uma fotografia ao mesmo tempo crua e fantasmagórica, o longa tem sucesso em expor o clima de hostilidade racial que assola a nação, acompanhando, através dos olhos de sua protagonista, o aumento gradual da violência nas batalhas entre o ''governo'' ditador e os rebeldes - com crianças empunhando metralhadoras de ambos os lados.
No meio do fogo cruzado, aos poucos somos apresentados para a história da francesa Maria Vial (Isabelle Huppert), que há muito tempo vive no país e é responsável por uma próspera plantação de café em solo africano, junto com seu marido (Christopher Lambert) e seu filho Manuel (Nicolas Duvauchelle). O conflito começa sua escalada quando Maria resolve ignorar todos os avisos de perigo - das rádios e do próprio exército francês - e permanecer em sua propriedade. Sem concordar com essa posição, o seu marido age, sem o consentimento da esposa, para tentar vender a terra e voltar com a família para a França.
Enquanto isso, a sombra da violência se aproxima cada vez mais da bucólica fazenda dos Vial, trazendo consigo reflexos indiretos: pessoas estranhas invadem os muros e os trabalhadores, com medo, abandonam a fazenda. Maria, irredutível na sua decisão em permanecer no local, busca mão de obra na cidade próxima para continuar com o trabalho da colheita. O conflito racial mostra sinais de eclosão em todas as partes, e cerca a família francesa de uma maneira irreversível.
A atuação impecável de Isabelle Huppert consegue retratar com fidelidade uma Maria Vial em conflito, presa entre o amor pela sua fazenda e pela segurança de sua família. Em outra interpretação marcante no elenco, um dos melhores momentos do longa acontecem quando Manuel, o filho mimado e super protegido do casal, explode em fúria, revelando o seu lado insano e sombrio.
A direção perturbadora do longa fica por conta de Claire Denis, que possui um envolvimento pessoal com o assunto: a cineasta passou parte de sua infância na África, e seus filmes frequentemente abordam temas que envolvem as lutas entre classes e raças.
O resultado de ''Minha Terra, África'' - que estréia hoje no Cine Com-Tour/UEL - é auxiliado por boas atuações e uma ótima direção, mas o longa compromete a sua eficiência pelas pontas soltas em seu roteiro, repleto de questões mal amarradas. Podem argumentar que isso é coisa de filme francês, mas o fato é que ''Minha Terra, África'', apesar de ser bem executado, deixa a sensação de ter uma conclusão frouxa demais, até mesmo para os padrões do cinema europeu.


