Glauber é um vulcão sempre ativo no desolado (mais uma vez) panorama do cinema brasileiro. Há que buscar no Aurélio o sentido figurado que tem a palavra – vulcão não se emprega apenas para o orifício na crosta terrestre que dá saída a material magmático como gases e fumaças, cinzas e lavas. Vulcão também se aplica a uma imaginação ardente, a um cérebro esquentado, a um gênio impetuoso. Existe melhor definição para Glauber Rocha? No 25º ano (prestes a completar-se, em agosto) de sua morte, Glauber segue sendo o mito que nos assombra – e nunca sai de cena. Tanto que foi aconteceu dias atrás, no Rio de Janeiro, o lançamento oficial do DVD duplo com a versão restaurada de Terra em Transe e mais extras do que possa imaginar. Foi lançada, também, a nova edição da coletânea de ensaios ‘‘O Século do Cinema’’.
  Além disso, o ministro Gilberto Gil, da Cultura, e o secretário Orlando Senna – do Audiovisual –, reconheceram o Tempo Glauber, também no Rio, como de interesse ‘‘público e social’’ – trata-se de um espaço criado por Lúcia Rocha para preservar a memória do filho. Isto significa o compromisso oficial com a permanência daquele templo do pensamento glauberiano. Glauber, que viveu apenas 43 anos (nasceu em 1938; morreu em 1981), não foi apenas o criador de uma dezena de filmes (14 títulos), entre curtas e longas, que revolucionaram o cinema brasileiro e mundial. Também foi um pensador – da política, da cultura, do cinema (que escolheu como meio de expressão). Você podia discordar dele e até pensar que Glauber, em vários momentos da sua trajetória, estava louco. Ele próprio dizia:‘‘Estão confundindo a minha loucura com a minha lucidez.’’ E nos filmes, nos textos, mesmo nos piores, há sempre o lampejo do gênio, que impede a mediocridade.
  Três e meio grandes filmes entre 14 fazem uma estatística mais do que honrosa, até porque nos restantes há um farto material para análise e discussão. Mas os melhores são mesmo ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’, de 1964; ‘‘Terra em Transe’’, de 1967; ‘‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’’, de 1969; e ‘‘Di’’, de 1976. O primeiro deles, ‘‘Deus e o Diabo...’’ já havia sido beneficiado por um primoroso trabalho de restauração.   Agora, é a vez de ‘‘Terra em Transe’’. Em março de 2007, o cineasta Joel Pizzini e a filha de Glauber, Paloma Rocha, esperam lançar os DVDs com as versões restauradas de ‘‘Barravento’’, ‘‘O Dragão da Maldade’’ e ‘‘A Idade da Terra’’. Foram dois anos de dedicação para trazer à luz a versão restaurada de ‘‘Terra em Transe’’, só possível graças ao apoio da Petrobras.
  Pizzini, que assina com Paloma o documentário ‘‘Cinema em Transe’’ – ambos fizeram a seleção dos extras e ela se responsabilizou pela produção geral do DVD duplo –, lembra que o negativo de ‘‘Terra em Transe’’ queimou com o de ‘‘O Dragão da Maldade’’ num incêndio ocorrido em 1973, na França, onde estava em poder do produtor associado Claude Antoine. Felizmente, havia um master na Alemanha, que serviu de matriz para as cópias, e foi a partir dele que foi feita a restauração da obra-prima glauberiana. Joel conta que Glauber, insatisfeito com a primeira mixagem de som do filme, fez uma segunda – e, para restaurar a magnificência sonora de Terra em Transe, foi preciso pesquisar em várias cópias e fontes.
  Os extras foram trabalhados por Paloma e Pizzini como o faria o próprio Glauber. Eles criaram um projeto de 13 blocos que possuem uma linguagem própria, conscientes de que essa ainda é uma mídia em formação. Além do documentário e de imagens e cenas inéditas, incluíram no material de duas horas o curta Maranhão 66, que Glauber fez a pedido do então governador (depois presidente da República) José Sarney.
  E há o fascínio imorredouro do próprio filme. ‘‘Terra em Transe’’ liga-se a um projeto continental de Glauber. Em 1967, quando seu filme surgiu, não era só o Brasil que estava em transe. Na obra de um escritor como Gabriel García Márquez, também se verifica o mesmo movimento de pensar a descontinuidade histórica e política, transformada em estética, numa expressão do transe latino. E o filme tem todos aqueles personagens em cenas emblemáticos – o poeta Paulo Martins, a guerrilheira Sara, o ditador Diaz, o político demagogo Vieira. Interpretados por Jardel Filho, Glauce Rocha, Paulo Autran e José Lewgoy, fazem parte do nosso imaginário. Eldorado, no filme, não é só o Brasil, mas a brasilidade é forte no barroco que invade as imagens de Glauber.

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