Terra de mistérios e paradoxos
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de julho de 1998
Jacques da Costa Carvalho Agência Estado 
Arquivo FolhaEspetáculo das horas
O relógio astronômico é uma das atrações da cidadePercorrer Praga é mergulhar no universo de Franz Kafka. São várias as referências ao escritor, da Cidade Velha à colina do outro lado do Rio Vltava, onde está o Palácio Hradschin, o castelo, que é título de um de seus livros. Tal uma ave de rapina imensa, o prédio estende suas asas sobre a cidade, a qual, segundo Kafka, não solta... Essa velhinha tem garras. Assim como a relação entre o palácio e a cidade é intrínseca, também é impossível dissociar o escritor de sua terra natal. Basta visitá-la uma vez para concordar com Kafka. É muito difícil se soltar de Praga. As imagens de seu cenário grudam na memória.
Tarefa difícil em Praga é separar o real da ficção. Para o romancista tcheco Franz Werfel, Prag hat keine realit?t. E tinha razão. Em Praga não existe realidade. Trata-se de um lugar, segundo Werfel, com um estado particular da alma, que faz coexistir, através dos séculos, o que é normalmente incompatível, onde o mistério se mescla ao grotesco, o místico ao absurdo, o físico ao metafísico; um lugar carregado de muitos paradoxos, onde se reencontram os contrastes das características checas, alemãs e judaicas para fazer nascer uma cultura e literatura únicas.
ReproduçãoPátio da Catedral de Nossa Senhora de Tyn, para onde dava a janela de um dos quartos de KafkaA melhor maneira de perceber tudo isso - com frio ou calor - é a pé. Entrando no mundo de Kafka, que morou em oito casas. Muitas delas (às vezes quartos) localizadas nos arredores da Praça da Cidade Velha (Staromestske Námésti), que centraliza alguns points obrigatórios de um tour na cidade. A Catedral de Nossa Senhora de Tyn (para onde dava a janela de um dos quartos do escritor), a Torre do Relógio (um espetáculo por si só, com bonecos a coreografar o tempo) e a Rua Celetná, de traçado medieval, que tangencia a praça.
Perto dali, uma outra praça, a Venceslau, sintetiza o passado e o presente da história tcheca. Foi palco das manifestações ligadas à fundação da República Tcheco-Eslováquia, em 1918; da tomada do poder pelo Partido Comunista, em 1948; da Primavera de Praga, em 1968, quando tropas do Pacto de Varsóvia mataram 100 manifestantes; e da Revolução do Veludo, em 1989, liderada por Vaclav Havel (reeleito presidente do país), que mandou os soviéticos para casa depois de 44 anos de ocupação.
Para os fãs de Kafka, o ponto central (ou inicial) do tour é a casa onde nasceu, na esquina das Ruas Kaprova e Maiselova, hoje Museu Kafka, na verdade uma loja com exposição de fotos, textos biográficos e vários produtos com o rosto do escritor - de caneca a bottons e camisetas. Também há livros e um mapa com 49 endereços de lugares onde o escritor trabalhou, estudou, viveu e frequentou.
Dois outros endereços não devem ficar de fora do roteiro. O primeiro é uma casinha geminada, minúscula, nº 22 na Rua do Ouro, ao lado das muralhas do castelo, onde o escritor morou em 1916 e 1917. A rua, antes habitada por alquimistas, é hoje um corredor de joalherias. Outra referência é o Velho Cemitério Judeu, situado em Josefov, antigo gueto, onde Kafka meditava. O cemitério surgiu no século 17, embora a área já fosse utilizada para esse fim desde o século 15.
Como a comunidade cresceu (foi uma das maiores da Europa), faltava espaço para enterrar os mortos e a saída foi cobrir tumbas, abrir covas e recolocar lápides na superfície. O resultado é sombrio e beira o surreal, assemelhando-se a uma floresta de rochas, com dez mil corpos sepultados. Paira ali um clima tão denso que nem mesmo Franz Kafka, mestre de situações e cenários nebulosos, poderia compor.


