Cunhado em meados dos anos 60 e amplificado nacionalmente pelo programa ''Jovem Guarda'' (TV Record), o apelido meigo sobreviveu à transformação da menina mineira de 16 anos na primeira popstar brasileira. Ao mesmo tempo, o rótulo a aprisionou à imagem da Ternurinha, mesmo depois de o programa sair do ar, em 1969. Maior do que a própria cantora, a personagem a impedia de caminhar adiante. A ''musa da jovem guarda'' não conseguia abandonar os fãs - e o sucesso comercial garantido - e seguir o caminho que bem entendesse.
Foi em 1971, voltando de uma visita a Caetano Veloso e Gilberto Gil em exílio londrino, que Wanderléa entendeu que Ternurinha deveria morrer para que ela pudesse seguir adiante na música. A cantora havia trazido na bagagem um frevo inédito de Caetano, ''Chuva, Suor e Cerveja'', e estava decidida a gravá-lo imediatamente. Era algo completamente diferente do que estava acostumada.
Quando apresentou a ideia à gravadora, a mesma CBS que lançara todos os seus trabalhos até ali, a reação não foi nada favorável. ''As pessoas queriam me enquadrar no passado'', lembra. ''Pela regra deles, eu teria que ser o clone de mim mesma, o cover de alguém que eu já não era mais.''
O jeito era romper de vez com o passado - a começar pela gravadora. Com produção de Nelson Motta e arranjo de César Camargo Mariano, o compacto de ''Chuva, Suor e Cerveja'' foi a estreia de Wanderléa na Polydor, selo popular da Philips. Trazia ''Pula Pula (Salto de Sapato)'', de Jards Macalé e Capinam, no lado B.
O passo seguinte foi ainda mais radical. ''Wanderléa... Maravilhosa'' (1972), o primeiro LP da nova fase, apresentava na capa uma cantora completamente diferente da ''musa da jovem guarda'', vestindo uma impactante peruca black power. Loura.
Os discos seguintes foram saindo sem nenhuma aposta das gravadoras. O primeiro foi ''Feito Gente'' (1975), cuja canção-título era criação do ''maldito'' Walter Franco. Vieram, na sequência, ''Vamos que Eu Já Vou'' e ''Mais que a Paixão'' - ambos produzidos sob a presença determinante do virtuoso Egberto Gismonti, então marido de Wanderléa.
Tanto experimentalismo logo cobraria seu preço. O grande público foi ficando cada vez mais raro. A partir dos anos 80, os discos de Wanderléa foram rareando. As gravadoras não queriam dela nenhum trabalho que não remetesse à jovem guarda, à Ternurinha.
Wanderléa entrou em autoexílio. Ficou sem gravar comercialmente por 16 anos. ''Minha autoestima estava no pé. Fui morar no mato, virei bicho-grilo'', diz. ''Sobrevivi porque construímos um estúdio no quintal e passávamos, eu e meu marido (Lalo Califórnia), compondo e gravando músicas pra nós mesmos. Foi minha terapia.''
O CD ''Nova Estação'' (2008), foi fruto desse processo doloroso de afirmação e negação. É baseado nele que a cantora lança agora, aos 64 anos, seu primeiro DVD e planeja, para o ano que vem, um álbum de inéditas. ''A Ternurinha teve seu tempo de ser maravilhosa, revolucionária. Minha personalidade aflorou por causa dela. Mas agora só penso nas músicas que ainda tenho pra conhecer.''

Serviço
-DVD Nova Estação
Cantora - Wanderléa
Gravadora - Canal Brasil e Lua Music

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