TERMINA HOJE A CAÇA AOS LEÕES
Uma função ingrata e incômoda: ser jurado da 57ª Mostra Internazionale dArte Cinematografica. Não é preciso muitos anos de janela veneziana, no caso para saber que a decisão do júri, presidido por Milos Forman, a ser anunciada hoje em solenidade na Sala Grande, deverá surgir depois de muita discussão e negociações internas. Nenhum dos 20 candidatos ao Leão de Ouro alterou os batimentos cardíacos. Nenhum título trouxe a marca da genialidade. O Círculo, do diretor Jafar Panahi, primeiro filme a discutir com franqueza e explicitamente as dificuldades femininas do mundo islâmico, pode dar o prêmio máximo ao Irã. Não que seja favorito muito distanciado de outros poucos candidatos em potencial, mas a urgência das denúncias, a eficaz simplicidade ao dar o recado e o momento estratégico da exibição na penúltima hora fazem dele uma boa pedida na bolsa de apostas do festival.
O escândalo de última hora ficou por conta do português O Fantasma, filme de estréia de João Pedro Rodrigues. A Portugal sem dúvida se deve um reconhecimento duplo. Em primeiro lugar, foi o país dos extremos. De um lado o rigor clássico, setecentista do veterano e inteiríssimo Manoel de Oliveira com Palavra e Utopia. E de outro este Fantasma, perdido e autodegradado nas noites escuras e imundas de Lisboa. O filme é também o mais emblemático de um festival que privilegiou o homossexualismo e a violência como determinantes do comportamento humano neste crepúsculo de século vinte.
A partir de um ser solitário e desesperado, um lixeiro anônimo, o diretor Rodrigues coloca em discussão as obsessões sexuais, a impossibilidade do amor e do desejo, a violência como consequência da relação recusada e não consumada, a rejeição. Uma explícita, longa e gratuita cena de felação entre homens, e um violento e aviltante processo de animalização colocam O Fantasma mal equilibrado na linha divisória entre arte e pornô e fazem dele o primeiro e tardio caso polêmico de Veneza-2000.
De volta à seção prognósticos. Além do Irã, a Ásia ainda acumula chances com o nostálgico embora longo Platform, sobre jovens da geração anos 80, buscando existir individualmente numa China asfixiada pelo coletivo. Também chinês, Liulian Piao Piao (Durian Durian), de Fruit Chan, é um trabalho sensível em chave neo-realista que descobre pequenos gestos de solidariedade entre clandestinos em Hong Kong, duas jovens, uma prostituta e uma pequena lavadora de pratos. É claro que Palavra e Utopia continua no páreo, o mesmo valendo para o australiano The Godess of 1967.
E os italianos, como ficam em sua própria casa? É provável que entre os quatro concorrentes, todos medianamente nivelados, algum saia com reconhecimento qualquer. Como no quarteto há boas interpretações masculinas, é até possível. E seria o bastante, embora os prolongados e patrióticos aplausos para La Lingua del Santo, comédia apenas correta. Entre os concorrentes franceses, possibilidade de premiação apenas para Fils de Deux MSres, de Raoul Ruiz. Selon Mathieu, de Xavier Beauvois, não se realiza enquanto coquetel que mistura questões sociais mais urgentes como o desemprego e as crises psicológicas cativas de um cinema nouvelle cuisine. Não se misturam recursos humanos de linha de montagem proletária com tédio existencial e sexual da burguesia patronal. Também sem chances o lituano Freedom, sobre três traficantes perdidos num deserto e também no vácuo existencial. A receita do diretor Sharunas Bartas não deixa dúvidas: é uma espécie de National Geografic reciclado por um Antonioni muito distante de sua melhor forma.





