TEREZINHA... Ele voltou para confundir
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de outubro de 2009
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
O cinema brasileiro, hoje tão comportado, está prestes a receber uma injeção de anarquia, deboche e esculhambação. No próximo dia 30, estreia em circuito nacional o documentário ''Alô, Alô, Terezinha!'', um resgate da figura do controverso apresentador Abelardo Barbosa (1917 - 1988), o Chacrinha. E como não poderia deixar de ser, o filme já chega às telas envolto em polêmica.
De um lado, há quem festeje seu tom provocativo e bem-humorado. Do outro, surgem acusações de sensacionalismo e exploração da imagem de ex-calouros e chacretes. No centro das discussões está o diretor Nelson Hoineff, que revolucionou a televisão no fim da década de 80 com o programa jornalístico ''Documento Especial'', especializado em reportagens sobre temas tabu.
Hoineff se justifica dizendo que apenas preservou a essência de Chacrinha, cuja principal marca era justamente a transgressão (leia entrevista nesta página). Seja como for, a produção ganhou quatro prêmios no último Festival Audiovisual do Recife (inclusive o de Melhor Filme) e foi selecionada para o Festival do Rio e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. De quebra, conseguiu o apoio da poderosa Globo Filmes, o que lhe garante uma distribuição nacional.
Pernmabucano da cidade de Surubim, José Aberlardo Barbosa de Medeiros partiu para o Rio de Janeiro no começo dos anos 40, decidido a trabalhar em rádio. O sucesso veio rápido, em 1943, com o programa de marchinhas de carnaval Rei Momo na Chacrinha, transmitido pela Rádio Clube de Niterói. Foi daí que veio o apelido, logo assumido como nome artístico. Durante a década seguinte, ele comandou, em várias emissoras, o Cassino do Chacrinha, já no formato de apresentar calouros e mesclar artistas de diferentes estilos.
O salto para a televisão aconteceu em 1956, na TV Tupi. Desde então, nunca mais saiu do ar, passando pelas TVs Bandeirantes, Excelsior, Rio e Globo - por onde teve duas passagens e consolidou sua persona excêntrica e irreverente. Ao seu redor, chacretes, jurados e personagens bizarros reforçavam o apelo anárquico do programa, considerado de mau gosto por boa parte dos intelectuais. As exceções eram figuras como Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre Caetano Veloso e Gilberto Gil, que viam em Chacrinha uma tradução do Brasil e suas contradições.
Mas não espere por informações biográficas em ''Alô, Alô, Terezinha!''. Segundo o diretor, a proposta do filme é mostrar o universo do comunicador e os elementos que gravitavam à sua volta. Nesse sentido, o longa de 90 minutos se desenvolve em quatro eixos: o próprio Chacrinha, as chacretes, os calouros e os artistas. Aliás, um batalhão deles.
De Roberto Carlos a Gretchen (passando por Fábio Júnior, Wanderléa, Baby do Brasil, Agnaldo Timóteo, Biafra e Elba Ramalho, entre vários outros), o documentário busca recuperar a atmosfera plural e desorganizada do auditório do Velho Guerreiro. Porque, afinal, como o próprio dizia, ele veio para confundir, e não para explicar.


