Terena faz vigorosa defesa da identidade indígena
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terça-feira, 21 de março de 2000
Por Angela Lacerda 
Recife, 22 (AE) - O seminário Novo Mundo nos Trópicos, que comemora o centenário do nascimento do sociólogo e escritor Gilberto Freyre, abrigou hoje uma vigorosa defesa da necessidade do resgate da identidade indígena na formação do povo brasileiro e do orgulho de ser índio.
O promotor da discussão foi o coordenador geral dos direitos indígenas da Funai, Marcos Terena, durante a mesa-redonda sobre "Homem, Cultura e Trópico", na Fundação Joaquim Nabuco, onde se realiza o seminário internacional que termina na sexta-feira
"Qual o pedaço de índio que existe nos 170 milhões de brasileiros?", indagou Terena, ao frisar que os índios foram os grandes mudos da história do Brasil. "Cinco milhões de índios desapareceram nesses 500 anos e este holocausto deve ser reconhecido." Ele observou que Gilberto Freyre deu sua contribuição ao tratar da miscigenação, mas lembrou que o preconceito e a discriminação em relação ao índio continuam fortes. Por isso, considera como missão do índio, neste século 21, educar o governo brasileiro na luta por uma política indigenista que valorize a sua cultura e o crescimento econômico.
"O índio não é mais da caça e pesca nem quer apito", disse. "Queremos romper essa muralha que nos separa da sociedade brasileira." Terena destacou que os índios foram vítimas da integração, especialmente nos anos 60 e 70, quando se começou a querer transformar o índio em não-índio, numa linha em que o índio deveria deixar a sua cultura, costumes e língua para se encaixar na sociedade branca.
"Posso ser o que você é sem deixar de ser quem eu sou"
afirmou Marcos Terena. "Posso falar português, ser um profissional e não deixar de ser índio." A população indígena atual é de cerca de 330 mil pessoas em 225 tribos.
Na mesma mesa-redonda, o antropólogo Roberto DaMatta apresentou um trabalho abordando as idéias de Gilberto Freyre sobre carnaval. Ele disse que, embora Freyre não tenha se dedicado especificamente ao assunto, desenvolveu idéias originais e interessantes sobre o tema. "Na sua visão, o carnaval é mecanismo de liberação das camadas oprimidas, sobretudo da mulher, aprisionada nos sobrados patriarcais", afirmou DaMatta. "Assim, o carnaval tem uma função catártica e terapêutica."


