Nova York
Planet Pop-AE

Arquivo FolhaMartin Scorsese consegue prender a atenção do espectador por mais de duas horasMartin Scorsese acaba de finalizar seu novo trabalho, o filme ‘‘Kundun’’, que conta a história do 14º dalai-lama, o líder político e espiritual do Tibete. Depois de dirigir produções como ‘‘Cassino’’ e ‘‘A Época da Inocência’’, ele enfrentou problemas com a Disney e para fazer o filme que não traz nenhum ator ocidental. Mesmo sem o apelo comercial que a participação de Brad Pitt garantiu a ‘‘Seven Years in Tibet’’, ‘‘Kundun’’ traz todos os elementos que fizeram de Scorsese um dos mais aclamados diretores norte-americanos no mercado. A produção vem sendo comparada a ‘‘A Última Tentação de Cristo’’ e ‘‘Caminhos Perigosos’’.
A idéia de retratar parte da vida de Tenzin Gyatso, que foi apontado como a reencarnação do dalai-lama aos dois anos, veio da roteirista Melissa Mathison, casada com o ator Harrison Ford, que foi indicada ao Oscar por ‘‘E.T., o Extraterrestre’’. Ela conseguiu aprovação do líder espiritual para trabalhar no filme e passou a ter encontros com ele para desenvolver a história. O resultado é a mais detalhada biografia do dalai-lama já feita, com os detalhes levantados por ele e por contemporâneos que também deixaram o país depois da invasão da China nos anos 40.
Scorsese se interessou pelo projeto, mas demorou vários anos para começar a trabalhar. A primeira decisão foi a de usar apenas tibetanos no elenco, mesmo que sem experiência em atuação. De acordo com o diretor, foram escolhidas pessoas que falassem inglês e que tivessem ‘‘uma ligação espiritual’’ com a história do país. O recrutamento foi feito na Índia, no Canadá e nos Estados Unidos, resultando na escolha de quatro garotos de diferentes idades para o papel do dalai-lama. O mais velho, Tenzin Thuthob Tsarong, presente na maior parte do filme, é um universitário que mora em Nova Delhi. No papel da mãe, está uma sobrinha do dalai-lama, Tencho Gyalpo, que conviveu com ele até a adolescência. ‘‘A maior preocupação dele era saber quem iria fazer o papel de sua mãe, muito mais do que o dele’’, disse Scorsese.
No Marrocos Depois de não ter conseguido autorização para filmar na Índia, o diretor resolveu rodar ‘‘Kundun’’ no Marrocos, onde foram construídos todos os sets e uma cidade cenográfica com casas feitas de pedra. Consultores tibetanos foram usados para garantir a veracidade de rituais e cerimônias e o comportamento dos personagens. Os tibetanos deixaram seus trabalhos e estudos para poder ter a honra de participar do projeto sobre a vida de seu líder espiritual. ‘‘Fazer o papel de Sua Santidade me aproximou muito da cultura do meu país’’, diz Tsarong.
O resultado é um complexo retrato de como funcionava a cultura tibetana antes de sua destruição pela invasão chinesa, com uma impressionante riqueza de detalhes em roupas, objetos e cenários. Scorsese consegue fugir de todos os clichês comuns a filmes épicos e prende a atenção por mais de duas horas. Vista sob os olhos do próprio garoto que se transforma no dalai-lama, a história emociona ao mostrar as dúvidas do período em que ele deveria ter preocupações menos sérias e ao justificar a posição muitas vezes conformista do líder em relação aos problemas de seu país. Um dos momentos mais emocionantes do filme é o encontro dele com Mao Tsé-tung, em que o líder chinês fala que a ‘‘religião envenenou o Tibete’’. A cena marca o exato momento em que o dalai-lama perdeu a confiança na China, que até então garantia que queria ajudar o país.
‘‘Kundun’’ envolveu a equipe - e principalmente Scorsese e Melissa Mathison - na causa do Tibete. Quando o governo chinês ficou sabendo da produção, eles ameaçaram a Disney de represálias comerciais caso as filmagens não fossem interrompidas. ‘‘Tenho certeza de que eles vão levar isso adiante, mas o estúdio nunca entrou em contato conosco pedindo que o trabalho fosse cancelado’’, diz a roteirista. ‘‘Acredito que o destino fez com que as coisas acontecem em um momento em que o mundo está preparado para entender o problema do Tibete’’. Melissa diz que ela e Harrison Ford pretendem continuar a fazer o possível para ajudar na libertação do país. ‘‘Nosso objetivo não é fazer as coisas com o intuito de entrar em questões políticas, mas podendo chamar atenção, por que vamos perder a oportunidade?’’, pergunta. Ela disse que pretende se encontrar com o dalai-lama quando ele visitar os Estados Unidos.

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