São Paulo - Ela tem muita ''catiguria''. Mas quer ser uma mulher de categoria. A prostituta Bebel, personagem da atriz Camila Pitanga na novela da Rede Globo, ''Paraíso Tropical'' - já adorada pelo Brasil, muito mais pelos seus tropeços linguísticos do que pela gentileza dos seus decotes -, vai recorrer às aulas de etiqueta para tentar se transformar numa dama de fino trato.
O objetivo é fazer bonito ao lado do cliente/namorado Olavo, inescrupuloso executivo interpretado por Wagner Moura, em festas e jantares das altas rodas. Mas será que, trazida para a vida real, a empreitada daria certo? Uma mulher tirada da ''vida fácil'' no calçadão de Copacabana pode virar uma fina e requintada socialite?
Sumidade em boas maneiras, a jornalista Glória Kalil é otimista. ''Ninguém nasce sabendo nada, tudo se aprende. Claro que, quanto mais tarde vem o aprendizado, mais sofrido ele se torna. Mesmo assim, dá para mudar.''
Segundo a especialista, Bebel vai ingressar num novo mundo e, portanto, precisa encarar o desafio como se estivesse aterrissando em outro país, de cultura completamente diferente. ''É como viver em algum lugar do Oriente, por exemplo. Você tem que aprender tudo de novo: a língua, os costumes, de que maneira se portar, comer, andar.''
Assim, a repaginação da personagem deve ser total, diz Glória. ''O primeiro passo, e certamente o mais difícil, é refinar o jeito de falar. Baixar o tom de voz, saber conjugar os verbos, mudar as gírias. Depois, vem o cuidado com o visual: cabelo, maquiagem, vestuário...'' Ou seja, fendas e decotes ganham moderação, os microcomprimentos crescem e o brilho excessivo se apaga. ''Em último lugar, está a transformação dos costumes'', completa Glória.
Com tantas barreiras a serem derrubadas pela candidata a madame, Beth Soares, dona de uma escola de etiqueta em Alphaville (2175-2384) - que também ensina as regras do bom comportamento a empregadas domésticas, babás e motoristas -, não esconde o pessimismo. ''Levaria bastante tempo para mudar uma pessoa como a Bebel. Acho que ela melhoraria, mas nunca se passaria por alguém da alta sociedade.''
Beth faz uma ressalva importante: ''Elegância não tem nada a ver com dinheiro. Conheço muitos ricos bem mal-educados. Já uma das funcionárias que trabalham em casa parece uma rainha, de tão refinada.''
A Bebel não precisa virar a Lady Di. Quem protesta é a diretora da ONG Davida, que reúne prostitutas e ex-prostitutas cariocas, Gabriela Leite. ''A personagem está fazendo as pessoas verem as nossas mulheres com mais humanidade. Não é feio ter o jeito da Bebel. Por que uma pessoa tão simpática como ela tem de se transformar numa dama?'', questiona a ativista. ''Caímos, outra vez, na questão do estigma. A personagem ajuda a combater isso.''
Antes de encarnar a exuberante prostituta na trama de Gilberto Braga, Camila Pitanga conviveu com as meninas da ONG e ganhou delas uma homenagem: a grife Daspu, criada pela Davida, lançou a sua nova coleção, tendo Bebel como musa inspiradora.

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