Tensão, um capítulo à parte
Fábio Dobbs
TV Press
Com 25 anos de carreira, o diretor Jorge Fernando ficou ainda mais estressado que o normal quando soube que teria de assumir a direção geral de Vila Madalena, novela das sete que estréia amanhã, na Rede Globo. Parei para pensar como fazer algo diferente, conta Jorge. Além da incerteza de poder ser original, sem os repetitivos clichês, a falta de prazo deixou o diretor maluco. Nada estava pronto: a pouco menos de cinco meses para estrear a novela, o autor Walter Negrão só havia escrito três capítulos, o elenco não estava escalado e a produção nem havia desenhado os cenários. O estresse levava o diretor Jorge Fernando a berrar com a equipe e conduzir a tensão a níveis alarmantes. Estava entrando em um estresse crescente e, se não parasse, perderia o controle, admite.
Hoje, após três meses de gravações, Jorge acredita ter encontrado no humor e na paixão a fórmula para a tranquilidade. Decidi me apaixonar pelo trabalho. Qual a razão de sair de casa se não posso me divertir e fazer algo que goste?, raciona. Dessa forma, o nervosismo não ocupa mais espaço. Quando sente que não consegue chamar a atenção de um ator para aquilo que pretende ou que o clima das gravações está pesado, Jorge arreia as calças, sem cerimônias, e mostra a bunda para o elenco. Não dá para ficar de mau humor com a direção do Jorginho, enfatiza Maitê Proença, que interpreta Eugênia.
A seguir, leia trechos da entrevista com Jorge Fernando.
Quando você percebeu que precisava dar uma parada?
Logo no início da produção, me conscientizei que estava nervoso demais e que se não fizesse um trabalho que gostasse, não valeria a pena. Tenho 25 anos de trabalho na Globo. Cheguei numa posição de diretor de núcleo em que posso decidir coisas, dar idéias de programas e, no entanto, isso parecia não ter peso nenhum. Tive de resgatar o tempo em que pisei na Globo pela primeira vez, vindo do teatro amador. Aí então percebi que havia conseguido chegar numa posição que sempre sonhava em conquistar e tinha de estar bem com isso.
Ter de emplacar uma novela e manter os níveis de audiência aumentou o estresse?
Sei que deveria me preocupar com o ibope, mas confesso que não ligo. Pelo menos, não ligo até a novela estar com uns 12 capítulos no ar. Aí então, se não mantiver a audiência, sento e procuro mudar. O trilho para o horário é de 40 pontos, mas tenho certeza que vou descarrilhar e se alcançar os 35 que Andando nas Nuvens conseguiu, acho ótimo. Mas apesar de não ficar neurótico com o ibope, não há como segurar a ansiedade da estréia. Choro o tempo todo em que a novela está sendo exibida pela primeira vez. Emociono-me ao ver as reações das pessoas ao meu lado. O público é o termômetro do trabalho.
Qual vai ser o diferencial de Vila Madalena para atrair esse público?
A novela vai mostrar relacionamentos. Procurei resgatar os hábitos das relações com os vizinhos, do papo na calçada, coisas que ainda estão presentes no bairro de Vila Madalena em São Paulo, mas que se perderam em muitas cidades grandes. Hoje, muitas pessoas nem cumprimentam os vizinhos. Fui buscar referências também no subúrbio de Del Castilho, no Rio, onde passei minha infância e me lembro dos vizinhos e de como era gostosa a amizade.
Mas toda novela é baseada em relacionamentos. O que há de diferente, então?
A diferença é que em Vila Madalena procurei não entrar no automático. Procurei caprichar em tudo. E não é fácil. A cena, por exemplo, em que o caminhão dirigido por Solano, papel de Edson Celulari, atropela um posto de guarda aconteceu realmente com dublês, não usei efeitos especiais ou truques de computador. Fazer uma cena como essa na tevê brasileira é difícil porque o público vai ao cinema e qualquer filme classe C americano faz melhor. No Brasil, tem de se contar com a sorte, o bom tempo e vários outros fatores que influenciam na cena. Mas acredito que está convincente.
A novela vai ter muitas externas. Isso dificulta a produção?
É muito mais estressante. Quando soube que iria ser gravada em um bairro paulistano achei que seria uma loucura porque praticamente invadiríamos o local. Mas as gravações no bairro acontecem tranquilamente. Muito melhor do que esperava.O diretor Jorge Fernando correu contra o relógio para colocar no ar a novela Vila Madalena, que estréia amanhã na Globo
Luíza Dantas/Carta Z NotíciasJorge Fernando num momento de relax: brincadeiras do diretor divertem o elenco de Vila Madalena





