São Paulo, 21 (AE) - Os anos JK, Jango, Castro Alves: por meio do documentário, às vezes do docudrama, o cineasta Sílvio Tendler tem contado a história de nomes importantes da história do Brasil, enquadrando-os na sua época para discutir o País, colocando em evidência temas como o mito da industrialização nos anos 50, as diretas-já ou a campanha abolicionista. Tendler também já fez um documentário sobre os Trapalhões, reconstituindo 25 anos do que, na época, ainda era o quarteto mais popular do cinema e da TV. Tendler volta-se agora para uma das figuras mais polêmicas da cultura brasileira neste século - Gláuber Rocha.
Na verdade, são dois filmes: um documentário de média-metragem, intitulado "Gláuber Rocha, o Filme", e outro longa, ficcional, em que o diretor será interpretado por um ator e que se vai chamar "Gláuber Rocha, o Filme do Brasil". O documentário deve sair logo. Acaba de ser selecionado entre os 12 que vão merecer a verba do Ministério da Cultura. Gláuber Rocha, o Filme vai dar o que falar. Tendler conseguiu a liberação da família, ou seja, de dona Lúcia Rocha, para utilizar material inédito sobre o enterro de Gláuber.
Há 18 anos esse material era embargado por dona Lúcia, que alegava motivos de ordem religiosa para não torná-lo público. Mesmo sem a intransigência da família de Di Cavalcanti em liberar o curta que Gláuber fez sobre o velório do pintor - e que poderá ser tombado na tentativa de tornar viável sua exibição -, dona Lúcia não deixava de adotar atitude semelhante. Tendler conseguiu o apoio da filha de Gláuber, Paloma, que sempre foi favorável à liberação. Paloma lhe disse: "Fale com minha avó." Tendler ligou. Ouviu um silêncio que lhe pareceu durar uma eternidade no outro lado. Finalmente, veio o sim. Dona Lúcia liberou o material que, com certeza, vai enriquecer o média-metragem de 50 minutos.
"Gláuber, esse vulcão". Chama-se assim a biografia de João Carlos Teixeira Gomes, lançada no ano passado nas livrarias brasileiras. O vulcão volta a expelir lavas. Gláuber não foi apenas um artista revolucionário, que tentou refletir sobre o Brasil por meio de seus filmes. Fez um cinema em transe, baseado na descontinuidade como conceito ou forma de interpretar a realidade não apenas brasileira, mas latino-americana. Aliás, Tendler gosta de destacar a vinculação de Gláuber com a América Latina. "Era um cineasta latino-americano", diz. Depois de pensar a colonização do País, Gláuber chegou à conclusão de que nossa história evolui aos trancos, um momento não corresponde exatamente à evolução do anterior porque, como colônia, o Brasil esteve sempre à mercê dos terremotos das potências colonizadoras (leia-se Portugal, mas não só). Gláuber criticava a colonização no cinema. Quando denunciava Hollywood ou dizia que era preciso criar um Vietnã, estava bradando contra a colonização cultural, tão odiosa quanto, embora infinitamente mais sutil do que a econômica.
Retrato - Tendler anuncia o que vai fazer no média-metragem: "Um retrato da solidão do artista." Pretende seguir o mesmo esquema de Castro Alves: "Faço filmes para debater o País e mostrar para o maior público possível." Por isso mesmo, ele foge aos mecanismos tradicionais de captação. "Castro Alves" foi feito pela Lei do Mecenato, que Tendler também espera que seja o instrumento para a realização de "Gláuber Rocha, o Filme do Brasil".
Desta maneira, com os filmes pagos, ele não precisa se preocupar com a bilheteria para recuperar o investimento e pode mostrar as obras como fez com "Castro Alves" no dia 7. "Mostrei no Teatro Municipal do Rio para uma platéia de 2 mil pessoas, a maioria jovens estudantes que nunca haviam entrado naquele teatro." Abrir o debate sobre o País, ajudar a popularizar Castro Alves e Gláuber Rocha, fazer com que as pessoas queiram ler as poesias de um e ver os filmes de outro, esse é o seu projeto de arte e vida.

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