Tendência a viver
Minha dúvida diz respeito ao uso da preposição de em frases como ''a tendência é de''. Tenho encontrado em revistas e jornais frases ora com a preposição, ora sem, como exemplifico a seguir. Maria Laís Pestana, São Paulo/SP.
- Tendência é de que problemas com chuvas aumentem em São Paulo. Portanto, a tendência é que não registrem nem grandes ganhos nem grandes perdas.
- Tendência é ampliar política de benefícios.
- Tendência é de aumentar as exportações agropecuárias este ano.
- A tendência é de as provas oficiais se expandirem para além do Estado.
- A tendência é as taxas futuras seguirem o comportamento do mercado de câmbio.
- Em outubro, tendência é de melhora. Mercado não teme mais Lula e a tendência é a queda do dólar.
O substantivo ''tendência'' pode ser regido por mais de uma preposição: a, de, em, para:
- Tem tendência à embriaguez.
- Opõe-se à sua tendência de conferir o ascendente.
- Observou a tendência natural das crianças em contrariar tudo.
- A senhora respondeu que não tinha tendências para freira.
Contudo, quando se tem a construção tendência + verbo ser + predicativo (ou oração predicativa), a preposição pode ser omitida. Aliás, a frase fica melhor sem ela:
- A tendência é melhorar.
- Nossa tendência é conquistarmos o hexa.
- A tendência é a queda dos preços.
No jornal O Estado de São Paulo, de 01/10/2002, na coluna Espaço Aberto, foi publicado o artigo ''Para onde vamos'', de Rubem de Freitas Novaes. Deste artigo extraí o excerto: ''Descontado o exagero, é muito apropriada ao momento que vivemos.'' Pergunto se a regência do verbo viver está correta. A. A. F. , São Paulo/SP.
Segundo os dicionários, o verbo viver é usado com a preposição em no caso de complemento de lugar:
- Ele vive em São Paulo há anos.
- Vive na casa do sogro.
A mesma regência acontece nas expressões ''viver em paz'' e ''viver em família''.
Também se usa a preposição em quanto se tem um adjunto adverbial de tempo posposto ao verbo:
- Nossos avós viveram em um século marcado por profundas transformações.
- Vivemos/estamos vivendo numa época de muita violência.
- Esse autor viveu no século das Luzes.
Por outro lado, o verbo viver dispensa qualquer preposição quando significa ''passar a vida; vivenciar, experimentar, passar por; fruir, desfrutar,
aproveitar (a vida)'':
- Ela disse que nunca viveu certas experiências.
- Vive uma vida folgada.
- Os melhores momentos da minha infância foram vividos solitariamente.
- Vivemos bons momentos juntos.
Assim sendo, o autor da frase pode defender sua redação dizendo que ali o verbo viver é transitivo direto (sendo o pronome ''que'' o objeto direto) porque ele quis lhe dar o sentido de ''experimentar, gozar, desfrutar'': os momentos que vivemos = os momentos vividos, os momentos presentes.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros ''Só Vírgula'' e ''Só Palavras Compostas'', é diretora do Instituto Euclides da Cunha -
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