TENDÊNCIA - Show de profissionalismo
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de dezembro de 2006
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Uma banda internacional no palco, daquelas que vêm ao Brasil uma ou duas vezes na vida. Enquanto a imensa maioria das pessoas no local se diverte, eles permanecem tensos, compenetrados. Estão trabalhando. Não, não estamos falando dos seguranças, dos organizadores do evento, da equipe técnica do show, dos vendedores de cachorro-quente. Eles são os organizadores de excursões para shows internacionais.
Esse é um nicho que vem sendo explorado cada vez mais por empresas de turismo de Curitiba. Quando um grande show internacional é anunciado em São Paulo ou no Rio de Janeiro, empresas na capital paranaense já iniciam os preparativos. E é negócio que vem sendo alimentado pela presença cada vez mais constante de gringos nos palcos brasileiros e pela euforia crescente dos fãs de bandas pop.
''O brasileiro está se acostumando a consumir mais cultura. Na Europa, nos Estados Unidos e na Oceania, os ingressos para os shows esgotam meses antes. No Brasil, isso está começando a acontecer. Veja o Coldplay (todos os ingressos para os shows da banda inglesa em São Paulo, em fevereiro, foram vendidos em dois dias)'', explica João Roberto Dahleim, diretor operacional da Amplitur, empresa curitibana que realiza excursões para shows internacionais desde 1992. Nos últimos anos, começou a promover excursões também saindo de outras cidades, como Londrina e Maringá.
Proprietários de empresas entrevistados pela Folha salientam a importância de procurar excursões profissionais. As empresas de turismo fazem seguro individual dos passageiros, têm documentação junto à Embratur e proíbem consumo de drogas e cigarros dentro dos ônibus. Embarcar em excursões promovidas por organizadores sem documentação e experiência pode ser desastroso.
''Eu já salvei um passageiro de uma excursão picareta. Era um menino que ia para um show do Slipknot. Ele pagou o pacote de uma excursão e o ônibus não apareceu. Nós tínhamos três lugares disponíveis e o menino foi com a gente'', relata Antonio Pedro da Luz Junior, promotor de excursões da Trilhas e Milhas. ''Em toda excursão fazemos denúncia para a Embratur de excursões que não atendem as exigências legais'', complementa Diego Medroni, proprietário da MD Tur.
Luz trabalha com esse tipo de viagens há seis anos e abriu a divisão da Trilhas e Milhas de excursões para shows há três anos. A empresa de Medroni realiza excursões há dois anos, mas o empresário também tinha experiência prévia. Os dois e Dahleim contam que decidiram investir no nicho quando perceberam a necessidade de profissionalismo na hora de organizar excursões.
Prestar esse tipo de serviço é conviver com a realidade descrita no primeiro parágrafo: enquanto os outros se divertem, há muito com o que se preocupar. Locais de entrada e saída são alterados de última hora, passageiros se perdem, pneus do ônibus furam na estrada.
''No show do Franz Ferdinand em São Paulo, em setembro, a apresentação foi cancelada na véspera, poucas horas antes da nossa excursão sair. Aí, ficou naquela polêmica, a organização do evento tentou contornar, cancela, não cancela. Recebi 100 telefonemas entre as 20 e as duas horas. Passei a noite em claro. No fim, o show rolou'', conta Medroni. E várias personalidades diferentes dentro de um ônibus podem gerar incidentes imprevisíveis.
''Teve uma história que aconteceu quando eu nem estava na agência. Organizei uma excursão para o Rock In Rio. Um menino, que depois descobri que era policial militar, pôs a cara na janela do ônibus e começou a provocar pessoas que estavam no trânsito, na entrada do Rio. Um sujeito que estava dirigindo ficou irritado e colocou uma arma para fora do carro. O menino jogou um copo e o carro do outro cara quase perdeu o controle. Aí, o sujeito disse que era policial federal e nos parou. Só depois de muita conversa resolvemos a situação'', diz Luz.


