Pode-se dizer que esses ''combinados'' surgiram na Europa há mais de dez anos. Porém, são cada vez mais habituais no cotidiano dos brasileiros que se encantaram com seu charme. Que tal uma porção de páginas daquele livro lançado há pouco tempo para ser saboreado com uma xícara de capuccino? Ou, quem sabe, um prato de massa italiana tendo como pano de fundo uma belíssima exposição de telas? Mais do que visão mercadológica, alguns estabelecimentos comerciais, agora, também destinam espaços para arte e cultura. Não é para menos, já que o conceito parisiense de agregar arte à boa mesa, conversas agradáveis com sabor de inspirações culturais e outras dezenas de combinações vêm se tornando um ''lifestyle'' cultivado nas grandes cidades.
Alguns, inicialmente foram idealizados para atuar em uma única frente de trabalho, como o caso de uma casa de chás inaugurada na década de 90 em Londrina. Quem imaginaria que as telas expostas no local eram frutos da falta de verba para investir na decoração? ''Logo que abrimos, não tínhamos dinheiro para comprar quadros, então uma artista nos emprestou algumas telas com a condição de comprarmos algumas ao final daqueles meses que ficariam expostas'', revelou Bet Shigutsi, proprietária da Casa de Chá Jasmin que atualmente também é restaurante.
E assim seguiram durante um ano, até que outros artistas se interessaram em expor suas telas. ''Aceitávamos todas, mas naquela época não conseguíamos avaliar o que era artisticamente bom ou ruim. Depois de três anos delegamos essa função a um artista plástico que gerenciava essa circulação. Hoje, uma outra pessoa vem intereferindo nas exposições que mudam a cada 15 dias'', disse Bet. Fator interessante é saber que as obras não passam despercebidas pelos clientes. De acordo com a proprietária, as pessoas notaram quando o espaço ficou sem os quadros por um único dia. ''Para nós é fantástico. A cada período as pessoas fazem comentários, inclusive já compraram muitas telas. Agora, a cada tela vendida nós ganhamos uma comissão, diferentemente de quando começamos. É engraçado isso'', comentou.
Há também as famosas livrarias megastores, paraíso dos apaixonados por livros. Quem imaginaria que seria possível passar praticamente o dia inteiro interagindo com os best-seller, edições revisadas e reeditadas dos títulos de sua preferência? Além de agregar milhões de páginas, as livrarias se transformaram em espaços multimídias. Aproximadamente 50 mil títulos de livros, 25 mil CDs, 10 mil DVDs, além de 200 títulos de revistas importadas e nacionais estão disponíveis na primeira e única megastore de Londrina: a Livrarias Porto.
Localizada em um dos shoppings da cidades, ela também abre espaço para quem quer saborear uma torta salgada ou até um capuccino gelado, como é o caso da jornalista Angely Cecília Proença, que trocou as habituais visitas ao McDonald's pela iguaria. ''É bem legal poder tomar um capuccino gelado enquanto leio alguns trechos de livros. Eu sempre gostei de passar por aqui, já que é um lugar agradável dentro do shopping'', comentou. Para o músico João Lucas Camargo, uma das principais atrações está nas revistas de música e instrumentos importadas. ''Toda minha família sempre gostou bastante de livros. Apesar de ler pouco, eu acho interessante dar uma olhada nos lançamentos. Gosto do clima clean, tranquilo e familiar. Às vezes a gente chega a esperar por uma mesa aqui no cyber café, de tão lotado que está'', disse Camargo.
De acordo com Luiz Carlos Maciel, gerente geral da megastore, esse é um modelo copiado que caiu no gosto dos brasileiros. ''Antigamente você ia à livraria, falava o nome do título que estava procurando para o vendedor e ele entregava em suas mãos. Isso está mudando. Hoje, as livrarias pequenas acabaram ficando mais temáticas. Aqui nós temos espaço para pocket-shows, lançamentos de livros e performances em geral'', afirmou Maciel. Para ele, a loja se transformou num espaço cultural e uma nova opção de diversão. ''Atraímos leitores, fãs de música, curiosos, além daquelas pessoas que aguardam na livraria a sessão de cinema começar. Aqui você pode pegar um livro às dez da manhã e sair às 22 horas sem trocar nenhuma palavra com ninguém, caso não queira'', acrescentou o gerente.
E quando os aspectos culturais e artísticos estão alinhados de maneira intrínseca com o lado profissional, não há como permanecer muito tempo longe desse caminho, segundo Arnaldo Falanca, proprietário do Tomate Seco Café Teatro. Logo que mudou-se de São Paulo, a proposta inicial era montar apenas uma trattorie na ''pequena Londres''. ''Sempre trabalhei com gastronomia, mas eu senti a necessidade de agregar o lado social com cultura e culinária. Então abri espaço para música ao vivo, cinema ao ar livre, apresentações circenses, lançamento de livros, exposições de telas, entre outras atividades'', disse Falanca. E claro, sem deixar de lado as ''receitas da nonna''.
Para Milene Thomas, atuante em comércio exterior, a idéia de agregar hábitos culturais com o paladar é fantástica. ''Venho ao menos uma vez por semana. Eu preciso desse tipo de lugar. Busco sempre unir minhas saídas noturnas a atividades culturais. É legal voltar para casa com algo novo na vida'', ponderou Milene.
Mas nem sempre é fácil unir o útil ao agradável, de acordo com Falanca. ''Eu peguei o caminho mais comprido, que é tentar manter um nível de cultura legal. Os espaços culturais já existentes na cidade são muito segmentados e as pessoas não vão. Por exemplo, são poucas as pessoas que saem de casa exclusivamenta para visitar uma exposição de telas; aqui elas têm as duas opções: espaço gastronômico e artes'', ressaltou.
Italo Ariel Aghina, estudante de Direito, sempre busca programas diferentes, como locais que apresentam músicas que fogem do circuito comercial. ''Infelizmente os lugares mais frequentados por estudantes acabam oferecendo apenas a 'saída pela simples saída'. Hoje, aqui tem música tradicional de outros países ao vivo. É uma idéia muito boa para atrair um público diferenciado'', disse o jovem, revelando uma receita que deu certo: xícaras de música, colheres de cultura e pitadas de arte.

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