No mês passado, ''Macdull, Prince de la Bun'', de Hong Kong, fez história como o primeiro longa de animação a concorrer nos 57 anos do Festival de Locarno, um dos grandes do cenário mundial. Há quase quatro meses, Cannes selecionou dois outros para disputar a Palma de Ouro: ''Shrek 2'' e ''Innocence''. Nesta segunda e decisiva semana do Festival de Veneza, três filmes de animação prometem mexer com os cinéfilos. Em competição, ''Howl's Moving Castle'' é a mais recente novidade do imperador japonês do gênero, Hayao Miyazaki, criador de ''A Viagem de Chihiro'', Urso de Ouro em Berlim e Oscar na categoria. E como eventos especiais incluídos na seleção oficial, outro japonês, ''Steamboy'', de Katsuhiro Otomo, e o americano ''Shark Tale'', de Victoria Jenson e Bibo Bergeron.
Mas não são só os festivais, habituais arenas de teste para se conhecer os rumos da indústria, que tomaram gosto pela animação. Os distribuidores ao redor do mundo parecem ter acordado para as imensas potencialidades comerciais que vieram anexadas aos desenhos contemporâneos. E as companhias não estão tendo mais que se desculpar pelos filmes de animação europeus e asiáticos que fazem parte de seus catálogos. Em função disso, o mercado para a animação mudou nos últimos três anos. A distribuição foi globalizada. Onde havia companhias especializadas somente em filmes de animação, agora há os distribuidores já não fazem distinção entre o cinema de ação ao vivo e o gênero ascendente.
Que a animação não é exclusividade Disney, há muito se sabia. Aliás, essa histórica exclusividade pode ser contestada com o sucesso pela Warner Bros, que ostenta com orgulho um cartel de títulos como a franquia ''Looney Tunes''. A marca Disney, embora sempre ''top of mind'' resistente, foi sendo mais e mais assediada pela concorrência, principalmente na ultima década. Não somente a WB, mas a Fox e a DreamWorks aliaram sucesso artístico à um impressionante - e saciado - apetite por fatias cada vez maiores do mercado.
A partir do início dos anos 1990, a DreamWorks não apenas colocou a animação no centro de seus planos comerciais como criou um nicho de atração que começa a render frutos a animadores independentes de todas as partes. Quase simultaneamente, a Pixar ajudou a firmar o conceito de largo consumo que agora acompanha os títulos do gênero. Filmes como ''Toy Story'', ''Shrek'', ''A Idade do Gelo'', ''Jimmy Neutron'' e ''Rugrats'' podem não ter ajudado diretamente os independentes, mas provaram que o monopólio Disney estava para sempre quebrado. E isto ocorreu muito também em função do desafio que os estúdios enfrentaram em busca da maior liberdade tecnológica.
A tradicional animação bi-dimensional já quase definitivamente cedeu lugar a 3-D. Enquanto o trabalho dos animadores permanece tão crucial quanto antes, outras partes do processo de produção ficaram à disposição de qualquer um que possa operar um computador. Mais importante: enquanto os custos despencam, aumenta e muito a capacidade de gerar filmes interessantes em 3-D. Núcleos de animadores na China, Romênia, Coréia do Sul, Canadá e Filipinas geram imagens para grandes produções - e a consequência é que esses núcleos tornaram-se potencialmente desafiadores.
A animação, na verdade, parece ter maior durabilidade sobre os filmes de ação ao vivo. A procura por desenhos parece ser mais ampla e mais duradoura do que nunca, graças ao DVD. A DreamWorks afirma que o filme de ação vende um milhão de unidades de vídeo para cada 19 milhões de dólares de renda nos cinemas, enquanto filmes de animação vendem um milhão para cada U$ 13 milhões no box office.

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