Há dez anos seria impensável que alguma editora brasileira apostasse num segmento então considerado um veneno de mercado: o de livros de ensaios sobre arte moderna e contemporânea. Naturalmente, algumas arriscavam lançamentos esparsos, mas foi a entrada da editora Cosac Naify, em 1996, que introduziu uma prospecção menos episódica na área, estimulando a concorrência a rastrear títulos no mercado brasileiro e internacional. Tudo isso para formar uma bibliografia básica que atendesse à demanda crescente dos estudantes universitários de arte, arquitetura, moda e design. Com a abertura da 27 Bienal Internacional de São Paulo, novos títulos chegam às livrarias, destinados não exclusivamente a esse público e engordando coleções lançadas por editoras como a Martins Fontes e Jorge Zahar.
Foi justamente graças ao diálogo entre as duas editoras que cresceu o número de títulos no mercado. Editor de um dos dois selos da Martins Fontes, o WMF, Alexandre Martins Fontes conta que um jantar na Feira de Frankfurt com o representante da inglesa Thames and Hudson selou essa ponte com a Jorge Zahar. ''Por se tratar de uma editora com o perfil semelhante ao nosso, foi inevitável essa aproximação'', diz, comemorando o êxito crítico da ''Coleção A'', que reúne estudos fundamentais no campo da comunicação visual. São ensaios dirigidos a iniciados sem descartar leitores pouco familiarizados com a arte contemporânea. Essa, aliás, também, é uma preocupação da Jorge Zahar, que já lançou seis volumes de sua coleção ''Arte Mais'', série bastante acessível sobre arte contemporânea, organizada pela professora Glória Ferreira, da Escola de Belas Artes da UFRJ.
Animadas, outras editoras soltam balões de ensaio de excelente nível. A Iluminuras acabou de lançar ''Os Papéis de Picasso'', título fundamental da crítica americana Rosalind Krauss. A Editora 34 assumiu o desafio de publicar em 14 volumes (já está no décimo) a coletânea ''A Pintura'', 227 textos organizados em 1995 pela professora de Estética Jacqueline Lichtenstein. Nela, críticos, filósofos, artistas e historiadores escrevem sobre a história da pintura, da Antiguidade ao século 20. A Editora Lazuli acaba de lançar dois títulos de sua nova coleção ''Arte de Bolso'', um sobre a pintora Tomie Ohtake e outro sobre o pintor Rubens Gerchman. A nova editora a entrar na área é a Sextante, que investe em edições como ''Caderno de Viagem'', fac-símile de desenhos inéditos de Debret que retratam suas impressões do Brasil colonial.
Deixando à parte os livros da Cosac Naify, que lançou e ainda lança títulos fundamentais na área de ensaios sobre arte, o catálogo da ''Coleção A'' da Martins Fontes tem crescido num ritmo vertiginoso. Após lançar clássicos de Herbert Read e Argan, a coleção abriga três novos títulos destinados a ajudar neófitos a entender o que se passa na Bienal. É recomendável começar pelo volume de Edward Lucie-Smith, ''Os Movimentos Artísticos a Partir de 1945'', que conta a evolução da arte desde o expressionismo abstrato americano à melancolia pós-pop da geração de Damien Hirst, cujos trabalhos sobre mortalidade envolvendo animais mumificados têm provocado escândalo há pelo menos uma década.
Os dois outros volumes recém-lançados pela Martins Fontes completam o quadro sobre tendências atuais: ''Novas Mídias na Arte Contemporânea'', de Michel Rush, e ''A Arte da Performance'', de RoseLee Goldberg. Todos esses estudos são ilustrados, o que encarece tremendamente a produção dos livros devido aos direitos de reprodução exigidos pelos donos das obras, fotógrafos e museus. Outro fator que mantém afastados editores do segmento é a tradução. O profissional tem de estar familiarizado com o jargão da área.
Em países europeus, livros como os da ''Coleção A'' são normalmente publicados em série populares como ''World of Art'', da Thames and Hudson, e vendidos ao preço médio de R$ 40, equivalente ao vigente no mercado brasileiro. Do ponto de vista comercial, não é uma das coleções mais bem-sucedidas da editora. A tiragem é pequena (de 2 mil a 3 mil exemplares) e demora até cinco anos para ser absorvida pelo mercado.
A professora Glória Ferreira encontrou outro caminho para produzir obras mais baratas e de rápido consumo. A coleção ''Arte Mais'', da Jorge Zahar, reúne pequenos ensaios de estudiosos brasileiros e não traz ilustrações. ''A idéia é transpor para uma linguagem acessível textos de pesquisadores acadêmicos que jamais seriam publicados na íntegra''. E foi justamente a ampliação do setor de pesquisas das universidades, complementa sua colega Cecília Cotrin, que estimulou o lançamento de livros como ''Escritos de Artistas'', organizado pela dupla, reunião de textos escritos pelos mais representativos artistas dos anos 1960 e 1970. Um trabalho de fôlego, que exigiu oito anos de pesquisas.

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