Tempos de bonança
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de agosto de 2012
Geraldo Bessa <br> TV Press 
A trajetória de Felipe Camargo, o médico Gabriel de ''Amor Eterno Amor'', renderia um bom livro, bem no estilo daquelas histórias de superação e volta por cima. A estreia foi aos 26 anos, como o mocinho da minissérie ''Anos Dourados'', de 1986. De carona no êxito da produção, no mesmo ano, ele teve papel de destaque em ''Roda de Fogo'', e logo depois assumiu o posto de protagonista em ''Mandala'', de 1987. ''Foram três trabalhos importantes e de grande repercussão. Mas foi em 'Mandala' que comecei a perder o foco da minha carreira'', relembra. Foi durante as gravações da novela que ele apaixonou-se por Vera Fischer, sua parceira de cena. Ficou casado com a ''musa'' por oito anos e teve um filho. A conturbada relação dos dois estampou capas de jornais e revistas de fofoca. Mas chegou ao fim em 1994, junto com o afastamento de ambos do elenco de ''Pátria Minha''. ''Foi um momento bem complicado. Onde as crises pessoais acabaram abalando o processo de trabalho'', analisa o ator carioca.
Com a vida exposta e a fama de indisciplinado, Felipe emendou trabalhos pequenos durante 15 anos. Até que recebeu um telefonema do diretor Fernando Meirelles o convidando para protagonizar a elogiada minissérie ''Som & Fúria'', de 2009. Atualmente, o jeito tranquilo e sossegado do ator evidenciam o bom momento que esse retorno em grande estilo deu à sua carreira. ''Era a chance que eu precisava. Mas não criei expectativas. Fui vivendo e dando o melhor de mim em cada trabalho que surgiu depois'', conta. Atualmente, com 52 anos recém-completados, Felipe admite querer continuar no ar e se diz satisfeito com o tamanho dos personagens que lhe são oferecidos. ''Provei que além de desenvolver um papel, posso trabalhar em equipe. As pessoas entenderam isso e passaram a confiar em mim. Ao olhar para trás, vejo o quanto a maturidade me fez bem'', analisa.
Em 2006, depois de participar da novela ''Paixões Proibidas'', da Band, você ficou três anos distante da tevê. Até que retomou a carreira na minissérie ''Som & Fúria''. Esse trabalho fez você se reencontrar com a televisão?
Com certeza. Foi uma grande oportunidade que eu tive e que reverbera até hoje na minha trajetória. ''Som & Fúria'' me abriu um leque enorme de possibilidades de trabalho e personagens de maior destaque nas tramas que vieram em seguida. Eu precisava desse estímulo. Trabalhar com aquela equipe e protagonizar um texto tão bacana me trouxeram a sensação de que eu estava inserido no mercado novamente.
Você estreou na tevê como protagonista de ''Anos Dourados'', em 1986, mas durante os anos 90 e início dos anos 2000 enfileirou papéis secundários em novelas. Como você avalia as oscilações de sua trajetória na tevê?
Minhas crises pessoais interferiram de forma intensa na minha vida profissional. Nos anos 90, me separei, algumas atitudes que não me orgulham foram parar nas capas de revistas e fiquei meio desacreditado como ator. E é claro que bons papéis começaram a minguar. Por isso, me afastei um pouco de televisão e investi no teatro e no cinema. Não aparecia nacionalmente, mas estava produzindo, trabalhando e querendo me reciclar artisticamente. Por conta disso, tive a oportunidade de levar para o teatro ''Boca de Ouro'', do Nelson Rodrigues, e fazer filmes como ''Jogo Subterrâneo'', do Roberto Gervitz. Foram trabalhos importantes para mostrar que eu ainda era capaz. Ao retornar ao posto de protagonista com ''Som & Fúria'', automaticamente fui redescoberto.
''Amor Eterno Amor'' é sua terceira novela depois dessa ''retomada''. É um sinal de que a tevê voltou a ser prioridade para você?
É um sinal de que meu nome voltou a rondar a cabeça dos autores, diretores e produtores de elenco da Globo. Tive uma segunda oportunidade e me agarrei a isso. Fiquei muito tempo fazendo pequenas participações em novelas e agora tenho a chance de desenvolver personagens importantes para o andamento das tramas. O Gabriel é o melhor amigo do protagonista e representa o ceticismo em uma história carregada de espiritualidade. Ele é necessário para fazer o contraponto de ''Amor Eterno Amor''. É um personagem bem construído e com história própria, assim como foi o Portinho em ''Tempos Modernos'', ou o Petrus de ''Cordel Encantado''. Aliás, quando fiz o Petrus, percebi que alguns dos meus personagens brincam muito com minha trajetória pessoal.
Como assim?
O Petrus foi aprisionado na masmorra e usava uma máscara de ferro. Ao gravar como o personagem, percebi que eu também usei uma máscara de ferro durante um tempo. Fui privado de mostrar meu trabalho da maneira como gostaria. Essa jogada entre realidade e ficção também foi muito forte com o Dante de ''Som & Fúria'', que era reconhecido como louco pelos amigos e colegas de trabalho. Assim como eu, que fiquei com fama de maluco durante um bom tempo (risos).
Seu personagem em ''Amor Eterno Amor'' é totalmente cético. Essa característica foi importante na hora de aceitar o convite para a novela?
Eu achei interessante. Ele é um médico, ateu, mas que a todo momento recebe sinais de que existe alguma coisa que a Ciência não consegue explicar. Seja com a história do Rodrigo (Gabriel Braga Nunes), seja com o dom que a filha dele, a Clara (Klara Castanho), carrega. Ela tem visões, conversa com espíritos, é uma criança extremamente sensitiva. Ele tenta dar um sentido lógico a esses fenômenos que o cercam. A novela é baseada no kardecismo. Não sou um cara religioso, mas é uma doutrina que desperta minha curiosidade e pela qual eu tenho bastante simpatia.
''Amor Eterno Amor'' termina em setembro. Você já arquiteta algum trabalho para depois da novela?
Estou estudando algumas possibilidades. Mas nada muito certo ainda. Eu adoraria emendar a novela com algum projeto no cinema. Depois de interpretar o Orlando Villas-Boas, em ''Xingu'', voltei a ter uma forte conexão e vontade de fazer filmes. O esquema de filmagem foi um dos mais intensos da minha vida. Foi pesado, mas transformador. Passei três meses na floresta trabalhando com a equipe.
Este ano você completa 26 anos de televisão. Se arrepende de alguma escolha ou atitude ao longo de sua trajetória?
Algumas (risos). Mas errar me fez o homem e o ator que sou hoje. É um eterno aprendizado. Estreei na tevê e logo fiz muito sucesso. Apesar de não ser um garoto, aos 26 anos eu era muito imaturo. Um certo deslumbramento, ligado a uma vida pessoal com alguns excessos e nenhuma base sobre como funcionava essa indústria, moldaram os primeiros anos da minha carreira. Mas tudo aconteceu da forma que deveria ter sido. Voltar para a Globo, fazer bons papéis e ter o respeito dos meus colegas de trabalho me faz crer que também acertei e soube aproveitar algumas oportunidades.


