TEMPORADA DE GRAVURAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de junho de 2000
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Nem teatro, nem música. Curitiba sedia a partir de hoje a 12ª Mostra da Gravura, a segunda mais antiga do País a primeira é de São Paulo e das mais importantes. Sob o tema Marcas do Corpo, Dobras da Alma estão 15 exposições com 557 obras assinadas por 120 artistas. Entre eles, Lygia Clark, Lasar Segall, Tunga, Maria Bonomi, Antonio Dias, Nuno Ramos, Cildo Meirelles, Iberê Camargo, Samico. E ainda Francisco Goya, Giovani Piranesi e Jacques Callot. A abertura acontece hoje, às 20 horas, no Museu da Gravura. A mostra permanece até dia 6 de agosto.
O evento promovido pela Fundação Cultural de Curitiba tem a curadoria dos críticos Paulo Herkenhoff e Adriano Pedrosa, além de curadores locais. A abertura para a participação dos paranaenses foi idéia de Herkenhoff, autor do projeto como um todo, que se preocupa com a formação de profissionais nas artes plásticas, segundo seu colega Pedrosa.
Em entrevista concedida no Solar do Barão, onde localiza-se o Museu da Gravura, o curador Adriano Pedrosa explicou que a diversidade de obras e linguagens da 12ª Mostra da Gravura deve-se à intenção de renovar e adaptar o evento aos novos tempos, dando-lhe mais um sentido de contemporaneidade. A mudança, porém, não foi tão radical a ponto de cortar todas as raízes. Manteve-se uma certa especificidade e uma certa relação com a noção de gravação e de gravura.
O evento, que já viveu melhores dias, nasce sob o signo da economia. O orçamento que era de R$ 800 mil caiu para R$ 400 mil e, com isso, foram abolidos os projetos internacionais. Há excessões como no caso do italiano Piranesi e da norte-americana Jenny Holzer. Pedrosa não é de ficar lamentando os cortes se tivesse o triplo do valor, iria trabalhar dentro daquele contexto, mas com o aperto do cinto a medida foi a adequação.
Se houve prejuízos? Houve, claro. A idéia era fazer não um panorama geral, mas mais rico, vasto e de como questões da arte discutidas neste evento estariam sendo tratadas nos Estados Unidos e Europa. Essa amplitude deixou de existir. Talvez a perda maior tenha sido a do público, mas para o curador não dá para especificar prejuízos a partir de valores financeiros. A arte, enfim, é mais sutil.
Para quem está pensando que a 12ª Mostra da Gravura reúna aquilo que tradicionalmente se viu, pode se preparar para as mudanças. Adriano Pedrosa enfatizou que a intenção deste projeto foi se distanciar da discussão sobre o meio específico da gravura. O que a curadoria busca é algo mais instigante que o meramente formal; ela abriu o leque para conceitos que estão associados à idéia de gravação.
Hoje é comum os artistas trabalharem com meios diferentes, como a carioca Beatriz Milhazes, que terá suas obras em Curitiba. Ela trabalha com um processo de pintura que é quase um decalque, disse Pedrosa. A pintora aplica tinta acrílica sobre plástica; depois de seca a tinta é retirada e colada na tela. Isso remete de algum modo à gravura, resumiu.
O tema Marcas do Corpo, Dobras da Alma traz em si sensação de intimismo, como um olhar do homem a si próprio. Em contraposição a isso, o homem angustia-se com a velocidade cada vez maior a sua volta, personificada especialmente pela Internet. Este olhar-se seria uma pausa ao redemoinho? A indagação feita a Pedrosa levou-o a dizer que arte é sempre uma pausa.
A velocidade moldou o olhar humano e este é o grande desafio:
As pessoas têm um olho e uma percepção mais adequadas à MTV, à velocidade da Internet, ao controle remoto da televisão. Como é que uma pessoa dessas pode ter uma pausa para olhar com outro tipo de olhos à experiência visual? O desafio da arte tem uma história que começa com o carro, a free way, a televisão coisas que orientam as pessoas para essa rapidez, que de alguma forma, torna-se uma experiência visual mais superficial... Isso é um desafio da arte porque ela, em grande parte, demanda uma pausa.
Na mostra curitibana o que vale é a contemporaneidade e os grandes valores que fazem parte da história, como Guignard, Lygia Clark, Goeldi, Poty e estrelas mais recentes. Quem for às exposições encontrará valores paranaenses, nacionais e internacionais sem, no entanto, ter distrações com elementos sedutores. Adriano Pedrosa foi enfático nesse ponto:
A única posição que tivemos em relação a isso, foi evitarmos a todo custo seduzir o público com cenografia ou com o espetáculo da tecnologia. De modo algum. Essas coisas não fazem parte de nossa postura curatorial. Sem gelo seco, sem raio laser.
Marcas do Corpo, Dobras da Alma, 12ª Mostra da Gravura de Curitiba. Abertura hoje, às 20 horas, no Museu da Gravura (Rua Carlos Cavalcanti, 533). O evento prossegue até dia 6 de agosto.


