Ao aceitar interpretar Tony, de ‘‘Estrela-Guia’’, Guilherme Fontes encontrou forças para retomar a carreira arranhada com a polêmica envolvendo seu nome na produção do filme ‘‘Chatô’’
Há cinco anos, Guilherme Fontes interrompia a carreira de ator para produzir seu primeiro longa-metragem, ‘‘Chatô - O Rei do Brasil’’. Novelas, nem pensar. Por ironia do destino, ele viu seu nome envolvido numa genuína ‘‘novela’’: as filmagens foram interrompidas por falta de dinheiro e ele foi acusado de desviar verbas destinadas à produção. Guilherme, então, se viu sozinho, passou a comer compulsivamente e acabou com 10 quilos acima do peso. Mal acreditou quando recebeu um convite da diretora Denise Saraceni, a mesma que o dirigiu na minissérie ‘‘Desejo’’, para fazer um teste para ‘‘Estrela-Guia’’. ‘‘Não tive o que temer. Foi uma forma de começar do zero. Passei em todos os testes que fiz até hoje’’, orgulha-se.
A intenção de Guilherme ao aceitar o convite da Globo não foi simplesmente retomar a carreira de ator. Ele queria também retomar a produção de ‘‘Chatô’’, sob intervenção do Ministério da Cultura desde maio de 1999. Precavida, a emissora encomendou uma pesquisa de opinião pública para saber se o telespectador rejeitaria a imagem de Tony, personagem do ator em ‘‘Estrela-Guia’’. O resultado da enquete surpreendeu o próprio Guilherme. O público não só ignorava a polêmica envolvendo ‘‘Chatô’’ como sentia falta do ator no vídeo. ‘‘A Globo não teria me trazido de volta se não acreditasse em mim. Ainda mais para contracenar com a princesinha do país’’, imagina.
Para não fazer feio em seu retorno ao papel de galã, Guilherme passou a fazer esteira em casa e fechou a boca para massas e doces. Logo, perdeu nove de seus 86 quilos. Brincalhão, diz que teve o ego massageado ao ser disputado por Sandy e Carolina Ferraz. ‘‘Sou um cara de sorte!’’, diverte-se. Guilherme só assume um ar sério ao falar de ‘‘Chatô’’. Nestas horas, veste a camisa do filme. Literalmente. Assim que terminar a novela, Guilherme reinicia a briga pela retirada do veto que o impede de captar mais recursos pela Lei do Audiovisual. Só assim, poderia adquirir os R$ 2 milhões que faltam para concluir o projeto. ‘‘Se saírem da minha frente, estréio o filme ainda este ano’’, garante.
A menos de um mês para o fim de ‘‘Estrela-Guia’’, você já arriscaria fazer algum balanço da novela?
Ah, é tão bom falar de um trabalho quando ele já está acabando. Ainda mais quando se trata de uma novela. Você nunca sabe o que vem pela frente... Achei o máximo fazer ‘‘Estrela-Guia’’. Esta novela foi mais um marco na minha carreira. A Sandy fez um belíssimo trabalho. Sabe Deus qual vai ser o futuro desta menina. É legal poder ajudar alguém que está começando. A Carolina Ferraz também dispensa elogios. Esta novela massageou o meu ego. Não fazia novela há quatro anos. Fico feliz em saber que estou participando de mais um campeão de audiência da tevê brasileira. Desde 1995, nenhuma outra novela no horário das seis teve uma audiência tão expressiva quanto esta.
E a que você atribui esses 35 pontos no Ibope?
Fundamentalmente, ao fenômeno Sandy. É óbvio. A Sandy é uma menina inteligente, que não tem nada de boba. Acho incrível a forma como ela se dedica à fama. Não é fácil acordar de manhã e ter de estar linda e maravilhosa. Quando se é uma ‘‘popstar’’, não dá para ir ao banheiro sem estar linda e maravilhosa. Mas percebo que ela tem muito prazer em tudo que faz. Não tem aquela coisa de ‘‘Ah, o trabalho roubou minha juventude...’’. No que diz respeito à novela, atribuo o sucesso também ao fato de ser uma novela curta. E, principalmente, ao fato de ser uma ‘‘novela-fábula’’, como costumo chamar. O final da novela fica evidente desde o primeiro capítulo. É assim que uma novela tem de ser.
Seu último trabalho na Globo foi uma participação em ‘‘O Rei do Gado’’, de 1996. Por que você ficou tanto tempo sem fazer novela?
Parei de me dedicar à carreira de ator para investir na de produtor. A minha saída da Globo em 1996 foi proposital. Queria investir na minha ‘‘fabriqueta de cinema’’, modestamente falando. Queria valorizar mais a profissão de produtor no Brasil. Uma profissão tão difícil e sofrida...
Há quase um mês, você assinou um contrato com a Globo que dá prioridade à emissora para exibir ‘‘Chatô’’. Quando você teve a idéia de vender os direitos de exibição para a Globo?
Antes de fazer o teste de imagem com a Sandy, resolvi ter uma conversa com a Globo. Queria saber até onde eles queriam investir no meu talento. A Globo não teria me trazido de volta se não acreditasse em mim. Não podia ser o galã da novela e o vilão da praça. Foi aí que impus o filme. Foram quatro meses de negociação. Tivemos uma conversa longa, bonita e muito proveitosa. Eu me enquadrei nas bases, criei as minhas vírgulas e fizemos um contrato sério, inteligente e honesto.
Você não ficou receoso que a confusão envolvendo ‘‘Chatô’’ pudesse atrapalhar sua carreira como ator?
Fiquei. Achei que a polêmica em torno de ‘‘Chatô’’ pudesse influenciar negativamente a minha imagem. Mas a Globo tratou logo de fazer uma pesquisa de opinião e concluiu que o bafafá que rolou a respeito do filme é assunto da elite. Além do mais, julguei necessário separar a minha verdadeira imagem daquela que saiu nos jornais. E como eu poderia fazer isso? Colocando a minha verdadeira imagem para fora. Voltei para a tevê por uma questão de ibope. Quando você aceita fazer uma novela, sabe que vai ter de dar muitas entrevistas para falar sobre o personagem. É impossível que alguém olhe para
mim e não queira saber sobre o filme...
Você nunca parou para pensar que seria complicado para um produtor estreante viabilizar um projeto cinematográfico de R$ 15 milhões?
Sabia que estava trabalhando numa área de produção muito delicada. Nesta área, há muitas pessoas querendo investir em projetos pessoais. E eu investi num projeto forte, sólido e audacioso. ‘‘Chatô’’ é mais que um filme. É um projeto multimídia que inclui documentários, série, minissérie, etc. E, como tudo que é audacioso, o projeto estava sujeito a intempéries. O que aconteceu foi uma intempérie, algo que não previ. Mas um dos principais culpados foi eu mesmo por ter escolhido algo muito grande. E outras pessoas também. Por terem tentado criar uma imagem falsa a meu respeito.
A que outras pessoas você se refere?
Sofri uma pressão muito violenta por debaixo dos panos. Foram cartas, chantagens, coações. Eu me vi completamente sozinho. Esse pessoal ligado ao cinema é barra-pesada. O ser humano é cheio de defeitos...
Como você encarou as acusações de desvio de verbas do projeto ‘‘Chatô’’?
Encarei a minha volta às novelas como uma arma contra qualquer tentativa de denegrir minha imagem. Houve uma pressão muito forte para se criar uma imagem deturpada e negativa a meu respeito. Eu me senti injustiçado. A Secretaria de Audiovisual cassou minha autorização para produzir, dando a entender que eu teria estourado o orçamento. Mas isso não aconteceu. Não há nada melhor que mostrar a minha cara e contar toda a verdade para reagir a tantas acusações mentirosas. Quero que as pessoas entendam que não tenho nada a esconder nem a dever. Agora que voltei para a tevê, quero voltar a investir em cinema.
Qual é a sua previsão mais otimista para a estréia do filme?
Sou um produtor incansável. Vou continuar lutando para que os atores tenham possibilidade de fazer o que gostam. Faltam só 20% de filme. Ou seja: quatro semanas de filmagens. Se saírem da minha frente, estréio o filme ainda este ano.

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