Quando num futuro não muito distante for estudada a etapa criativa de Woody Allen que abrange os últimos quatro anos, se falará de sua ‘‘fase européia’’. Em meados dos anos 1990, os produtores dos Estados Unidos deram as costas a ele, que não teve outro remédio que fazer as malas e cruzar o oceano para seguir trabalhando em seu ritmo habitual de um filme por ano. A partir da base estabelecida em Londres, em 2005 lançou ‘‘Match Point’’, em 2006, ‘‘Scoop’’, e em 2007 ‘‘O Sonho de Cassandra’’. Neste segundo semestre o circuito internacional está recebendo ‘‘Vicky Cristina Barcelona’’, quase que inteiramente filmado em Barcelona. O filme, já lançado no Brasil, estréia hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2).
  A trama desta comédia romântica agridoce, leve, livre e solta transcorre nos dias atuais. Vicky (Rebeca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são garotas dos Estados Unidos que passam férias na Espanha. São muito amigas, mas muito diferentes uma da outra. Vicky é uma dessas republicanas de carteirinha, classe média tradicional, com expectativas de bem comportada vida convencional, estudiosa, sensata e a ponto de se casar com Doug (Chris Messina), um bom tipo que só pensa em constituir família. Ao contrário, Cristina é uma aventureira emocionalmente desinibida e sexualmente temerária, alguém sempre em busca de algo mais e somente saberá aquilo que não quer para si.
  Em visita a uma exposição de arte abstrata, as duas conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), pintor de prestígio e com fama de ardoroso e temperamental. Logo no primeiro diálogo, ele as convida para um fim de semana em Oviedo, regado a vinho e sexo. Cristina consegue convencer a amiga a viajar até a capital asturiana. De volta a Barcelona, a relação entre Juan Antonio e as garotas se complica quando aparece em cena a ex-mulher do pintor, Maria Helena (Penélope Cruz), também artista e passional ao extremo. Os dois se amam com loucura, mas são incapazes de estar juntos: sempre acabam querendo se matar.
  É claro que as situações criadas a partir daí ensejam momentos de comicidade, que funciona de acordo com a expectativa da platéia e em função do campo magnético criado entre o quarteto de personagens - de forma mais notável com a presença de um arrebatado Bardem e da contundente Penélope, ambos no esplendor de suas características hispânicas que vão roubando cada cena em que aparecem.
  ‘‘Vicky Cristina Barcelona’’ não pode ser incluído na categoria de filmes mais ‘‘redondos’’ de Woody Allen. Mas debaixo de sua aparente ligeireza e certa desarrumação, o trabalho deixa entrever sinais inequívocos de complexidade e melancolia. E a evidência de que, para o cineasta, o que mais parece interessar é a possibilidade de seguir contando suas rocambolescas histórias como suporte de seu irônico ponto de vista sobre nosso mundo e seus habitantes.

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