Tempo de comédia 2: irmãos Coen
Os irmãos Joel e Ethan Coen voltam ao terreno do humor negro, que tão bem conhecem, com este ''Queime Depois de Ler'', a partir de hoje em lançamento nacional (confira na programação de cinema na página 2). Uma comédia com trama disparatada que tinham planejado rodar antes de ''Onde os Fracos Não Têm Vez'', filme que tanto êxito obteve neste ano. Muitos compromissos de boa parte do elenco estelar obrigaram os cineastas a inverter a ordem dos projetos. E nem pensar em substituição: todos os personagens escritos pelos Coen tinham destinatários bem definidos, daí a demora.
O argumento-roteiro, desmistificador e elaborado com maestria, mescla dois grupos de personagens que se movem em mundos muito diferentes. De um lado está Osborne (John Malkovich), analista da CIA com a eficiência comprometida pelo álcool. Ele acaba de ser despedido, e também está concluindo umas certas memórias tão reveladoras quanto explosivas. É casado com Katie (Tilda Swinton), que quer se divorciar dele para ficar com o amante, o agente federal Harry Pfarrer (George Clooney). No outro bloco, igualmente descerebrado, mas em outra medida, encontramos Linda Litzke (Frances McDormand), funcionária de uma academia, internet-dependente e obcecada com a idéia de plásticas rejuvenescedoras; Chad Feldheimer (Brad Pitt, extraordinário candidato de cômico revelação da temporada), aquele popularmente conhecido como QI de ostra, e Ted (Richard Jenkins), dono do local de malhação.
Estes dois universos de autênticos perdedores, todos quarentões, vão se unir quando o disquete com as tais memórias de Osborne vai parar sem querer nas mãos de Linda, que pretende transformá-lo em dinheiro para finalmente receber os retoques estéticos com os quais sonha há tanto tempo. Em resumo, uma confluência de encontros fortuitos que, unidos à própria simplicidade dos personagens, dará lugar a situações tão inesperadas quanto hilariantes.
''Queime Depois de Ler'' é comédia negra original, ácida, implacável sobre espionagem e estupidez, ou sobre ambas as coisas simultaneamente. Ao entrecruzar comportamentos absurdos, e fazer deles banalidades, o humor bizarro e muito pessoal dos Coen não deixa de recorrer a uma certa violência, algumas vezes brutal. Absolutamente deliciosos os diálogos entre os dois homens da CIA que volta e meia se reúnem para acompanhar a movimentação daqueles personagens desorientados de ópera bufa. Eles e Brad Pitt como o instrutor obtuso já valeriam o ingresso. (C.E.L.J.)





