São Paulo, 20 (AE) - O frio na alma. Raramente a sensação foi captada pelo cinema com a intensidade de "Tempestade de Gelo", de Ang Lee, que tem pré-estréia sábado, às 21h40, no Espaço Unibanco de Cinema. A história é ambientada no início dos anos 70 - 1973, para ser exato, momento culminante de ressaca de um país. Crise do petróleo, um primeiro sinal de recesso da revolução sexual, o escândalo Watergate. Cada um desses eventos, em separado, já seria difícil de digerir. Juntos
formam uma mistura explosiva.
Lee (de "O Banquete de Casamento" e "Comer, Beber, Viver") é natural de Taiwan. Segue de perto uma família típica norte-americana, os Hoods. Ben (Kevin Kline) está tendo um caso com sua vizinha, Janey Carver (Sigourney Weaver). A mulher de Ben, Elena (Joan Allen), é uma fanática leitora de livros de auto-ajuda. Frágil como uma flor esmaecida e já desconfiada de que o marido anda pulando a cerca. Há os filhos adolescentes: Paul Hood (Tobey Maguire) e a irmã, Wendy (Christina Ricci), obcecada por Nixon e pelo despertar da sexualidade. Os conflitos - internos e externos - vão levando a família a um ponto de não-retorno. Tudo se resolve, se o termo cabe, na longa noite em que desaba sobre a cidadezinha, New Canaan, Connecticut, uma violentíssima tempestade de gelo.
Metáfora - Atenção: gelo, não neve. A neve pode ter caráter romântico, confortável, apaziguador. Fora da cidade, onde logo se transforma em lama, conserva uma conotação de pureza, com sua brancura imaculada. O gelo, não. Ele ataca as casas, penetra nos carros, corrompe a rede elétrica, estoura os encanamentos. Esfria os ossos, parece a morte. Por isso, é a metáfora escolhida por Lee para envolver sua história.
Nessa longa noite de loucuras, rodeados de gelo por todos os lados, os Hoods adultos e mais alguns marmanjos das redondezas vão envolver-se num triste simulacro da liberação sexual. Promovem uma "festinha da chave" - uma key party. Funcionava assim (no Brasil também era comum): ao chegar, os casais depositam as chaves do carro num vaso. No fim da festa, cada mulher pega ao acaso um chaveiro e "é levada para casa" pelo dono do automóvel. Troca de casais. Enquanto os adultos se divertem, os adolescentes também partem para a aventura. Drogam-se, embriagam-se e tentam aproveitar o tempo livre para, eles também, fazer suas experiências em torno da sexualidade.
Lee é fino observador social. Capta no ar um momento de transição mal resolvida. Os adultos dos anos 70 atravessaram a libertária década anterior. Constataram que a flexibilidade dos costumes não era uma aquisição permanente. Começavam a vislumbrar a chegada da meia-idade numa época de profunda incerteza. Pensava-se que a crise do petróleo poderia jogar o mundo em brutal recessão. Por outro lado, eram obrigados a conviver com um presidente que mentia ostensivamente e, era muito provável, teria cometido mais de um ato reprovável.
Há uma sutil, mas marcante, mudança de mentalidade entre uma década e outra. Mesmo na individualista América, valorizava-se, pelo menos em alguns ambientes, o interesse coletivo. Nos anos seguintes, com a falência das revoluções, o movimento pendular levou cada um a cuidar do próprio ego. Cada um na sua, era o que se dizia, lá e cá.
Se o coletivismo é paradoxal (porque tem de lutar contra a tendência egoísta natural em cada ser um humano), o individualismo não deixa de ser problemático. Cada um pode encantar-se com o próprio umbigo, mas é obrigado a conviver socialmente e precisa do outro, nem que seja para a satisfação do apetite sexual.
Contradição - O interessante do filme é apanhar os personagens nessa contradição viva. Vivem num momento de transição histórica. Mas também passam por angustiantes pontos de mudança (e de não-retorno) em suas existências biológicas. Os pais estão saindo da maturidade para entrar na meia-idade. Os filhos deixaram a infância e chegaram à adolescência. É tempo de balanço para os primeiros. E também de provar a si mesmos que continuam funcionando a contento como machos ou como fêmeas.
Para os garotos, trata-se de ver como a sexualidade funciona. Como é transar, mas também o que significa beber ou ingerir aquelas pílulas que mamãe guarda no armário do banheiro. Já precisam, também, avaliar o legado de mundo que receberão dos pais. Não muito animador, diga-se, na época de Nixon.
É curioso como apenas agora os anos 70 estejam sendo lembrados para valer pela ficção. Sempre perderam de longe, na concorrência, para a mais romântica, idealista e florida década de 60. Isso pode estar ocorrendo porque os anos 70 se assemelham singularmente aos 90. São anos marcados pelo realismo amargo, pela busca de caminhos solitários, pela falência ética que leva ao cinismo.
No meio disso tudo, pensava-se (mas durante os sixties essa era a teoria conservadora) que a família, como núcleo social, sairia preservada de qualquer desastre. Engano. Lee nota que a crise social se instala no interior mesmo da família. As paredes de cada casa individual não são capazes de isolar socialmente as pessoas que as habitam. E o caos e a morte que rondam a sociedade ameaçam também a célula familiar.
Curiosamente, a família sobreviveu muito bem aos tempos ditos libertários. Parece muito mais afetada pela anomia ética dos anos 70 e da época atual. O fato de continuar existindo na realidade não significa que não tenha sido atingida em sua essência. Prossegue vivendo, mas com um frio da morte na alma. É o que indica esse belíssimo, mas também muito duro. Serviço - Tempestade de Gelo. Drama. Direção de Ang Lee. Com Joan Allen, Kevin Kline, Sigourney Weaver. Duração: 113 minutos. Amanhã, às 21h40, no Espaço Unibanco 1, em São Paulo. Livre. Distribuição: Pandora.

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