Um pianista e um artista plástico, que têm em comum o gosto pela culinária, criaram a Confraria Honesta Volúpia para quem acha que a gula não é pecado
O pianista Marcelo Torroni e o artista plástico Washington Silveira vestem com perfeição o figurino de profissionais múltiplos. Torroni é pianista, compositor erudito (‘‘não no sentido clássico, mas no sentido de ‘música pouco ouvida’’’) e frequenta com a mesma desenvoltura o círculo roqueiro curitibano. Toca como convidado nas bandas da cidade e integra o grupo Wandula.
Washington Silveira fez Licenciatura em Artes Plásticas na Universidade Federal do Paraná, e trabalha com objetos tridimensionais. Tem uma exposição marcada para o segundo semestre na galeria Ybakatu, em Curitiba, e quando não está no atelier ocupa-se de outra atividade: é cantor de soul e funk. Há um ano Torroni e Silveira juntaram panelas e temperos e fundaram a Confraria Honesta Volúpia.
Isso aconteceu depois que o pianista retornou de um período em que passou fora. ‘‘Quando voltei não tinha muita atividade profissional, a música estava complicada e então resolvi investir nos meus conhecimentos culinários’’, revela. Junto do aprofundamento na arte, veio a disposição de se associar ao artista plástico, notoriamente mais íntimo da culinária. Torroni diz que neste assunto de cozinha não herdou influência de ninguém. O interesse deve-se unicamente à ‘‘índole de me virar sozinho’’.
O amigo Silveira por sua vez credita aos pais esse gosto, embora jamais tivesse pensado em se profissionalizar. As circunstâncias financeiras é que o levaram a assumir ‘‘a cozinha como profissão’’. E de tal modo que em março estará abrindo com Marcelo Pires (também artista plástico) e sua mulher, o Duchamp Bistrô. A base serão as comidas francesa, italiana e asiática.
Inicialmente a Confraria tinha como sede a casa da avó de Marcelo. Ali as pessoas se reuniam em noitadas gastronômicas que aconteciam uma vez por semana, ou a cada 15 dias. A divulgação era na base do boca-a-boca, e a cada encontro os comensais sabiam que haveria um jantar à altura: entrada, prato principal e sobremesa, ao custo de R$ 15,00 por pessoa. ‘‘Preço modesto para uma comida mais sofisticada’’, considera o pianista.
Com a troca de endereço de Torroni, a Confraria transformou-se numa empresa itinerante: realiza eventos gastronômicos e atende também em residências, que é um mercado ainda incipiente na cidade. O máximo que Curitiba incorporou foram os populares porco no rolete e ‘‘homem-pizza’’ (pizzaiolos que elaboram os pratos no local). Mesmo assim os dois artistas-gourmets conseguem se manter com a empresa, embora janeiro esteja sendo atípico: a procura sofreu uma queda monumental.
A Confraria Honesta Volúpia trabalha com preços variados. A média da refeição (entrada, prato principal e sobremesa) por pessoa gira entre R$ 15,00 e R$ 20,00 e pode chegar até a R$ 50,00, dependendo daquilo que for pedido. Não estão incluídos a bebida, nem os serviços de louça, talheres e cristais. Nesse caso é cobrada taxa suplementar.
A convite da Folha 2 Marcelo Torroni e Washington Silveira prepararam uma receita batizada de ‘‘Coquetel Honesta Volúpia’’, em homenagem ao primeiro aniversário da sociedade. Este prato pode ser servido como entrada e ir à mesa quente ou frio (um pouco mais apimentado). ‘‘Geralmente servem com arroz como acompanhamento’’, explica Silveira. A base é peixe com molho feito de ‘‘ingredientes acessíveis’’: tomate, salsinha, cebolinha, alho.
O toque especial fica por conta dos camarões flambados na pinga, que dão assim cores brasileiras à composição francesa. Marcelo Torroni confidencia um ‘‘segredinho’’ nos legumes que vão na receita: estes devem ser temperados com ervas de Provença ‘‘encontradas em qualquer loja de importados. Mas tem que ser as francesas, porque existe uma adaptação brasileira que não dá muito certo’’, decreta.

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