Tempero brasileiro na Rússia
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sexta-feira, 07 de abril de 2017
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

Ele poderia ser apenas mais um londrinense que tentou a vida no exterior e voltou ao país depois de uma longa temporada. Mas a partir do momento em que Carlos Alberto de Oliveira decidiu que iria embora do Brasil, após ler um anúncio de jornal, mergulhou de cabeça na oportunidade. Lá fora, aproveitou para aprender tudo o que podia: língua, cultura e, principalmente, a culinária. Tanto que, recém chegado de Berlim (Alemanha), onde passou os últimos três anos antes morou dois anos em Budapeste (Hungria) e cinco em Moscou (Rússia) o chef de cozinha nascido na zona leste de Londrina já faz planos de abrir um espaço gourmet para servir quitutes, petiscos e outras iguarias que aprendeu quando morava no exterior, sobretudo no mais importante centro econômico e financeiro da Federação Russa.
Cozinheiro com vinte anos de experiência em restaurantes e hotéis de Florianópolis (Santa Catarina), foi em 2006, portanto, que partiu rumo a um novo capítulo de sua vida. Desembarcou em Moscou, num frio de 40 graus negativos, para trabalhar num dos maiores restaurantes de comida brasileira na cidade. "Era um restaurante com três andares, cada um dedicado à culinária de um país: brasileira, cubana e francesa. Somente o andar brasileiro tinha mais de 500 lugares. Fui para ser o responsável por tudo e mais 120 funcionários", conta. E quem acredita que agradar aos gringos com comida brasileira é fácil, não sabe o desafio que foi. "Mesmo a especialidade da casa sendo carne, que os russos gostam muito, o ponto é diferente, pois eles não comem carne mal passada. Também não são muito fãs de feijão à brasileira. Mas a costela assada e nossa caipirinha de cachaça faziam muito sucesso."

O prato preferido de Yuri Gagarin
No local onde o chef trabalhava, um salão em formato redondo, havia apresentação de dançarinas brasileiras e de roda de samba. "Vivia lotado, cheio de gente, entre eles vários políticos e pessoas de grande influência." Isso rendia gorjetas generosas e muitos dos clientes, inclusive, gostavam tanto do cardápio elaborado pelo chef que o convidavam para realizar jantares especiais e workshops. Numa dessas ocasiões cozinhou para um grupo de astronautas russos, como Georgi Mikhailovich Grechko, que participou do programa de estações espaciais Salyut até 1992 para, então, dar aulas de física atmosférica na Academia Soviética de Ciências. Grechko também participou das missões espaciais Soyuz 17, Soyuz 26 e Soyuz T-14. "Nessa ocasião, conversamos muito e ele fez questão de me ensinar a receita preferida de Yuri Gagarin, uma sopa de tomates", lembra.
Além de restaurantes, o amplo conhecimento na culinária do Brasil o levou a cozinhar para reuniões em várias Embaixadas Brasileiras espalhadas pelo mundo, em países como Finlândia, Cazaquistão, Mongólia e Egito, onde também ministrava aulas. "Em cada lugar que passava, além de ensinar, também aprendia alguma comida típica e pratos exóticos como de filé de canguru e rabo de jacaré", recorda-se. A imersão na cultura se intensificou com o casamento com uma russa, que o acompanhou em todos os locais que passou, mas, no entanto, ainda não veio ao Brasil. "Com ela aprendi costumes do dia a dia e aprimorar pratos russos. Uma de minhas especialidades hoje é a borscht, sopa à base de beterraba muito consumida."
De volta à sua terra natal, à casa do avô onde cresceu e aprendeu o ofício da confeitaria, está ansioso para mostrar aos londrinenses uma culinária não difundida por aqui. "Quase não vemos estabelecimento com esse tipo de gastronomia em nossa região, fica restrita às residências que têm a tradição familiar. A culinária brasileira é riquíssima, com influências de várias culturas, mas existe um universo muito grande de temperos, sabores e ingredientes de outros países que são muito bons e as pessoas precisam conhecer." Para isso, tem realizado confraternizações e reuniões fechadas para grupos interessados na culinária internacional, até abrir seu próprio restaurante. "Vai ser um botequim russo, ao estilo brasileiro, mas com comida e bebida de lá", antecipa.


