A música Vatapá, de Dorival Caymmi, inspirou a produção de arte da minissérie ‘‘Dona Flor’’ e seus dois maridos, da Globo, a dar maior realismo às cenas de gastronomia baiana. Seguindo os versos do compositor - ‘‘Quem quiser vatapá(ô)/ que procure fazer/ primeiro o fubá/ depois o dendê/ Procure uma nega baiana (ô)/ que saiba mexer...’’ -, a produtora Maria José Rodrigues convidou uma especialista no assunto: a cozinheira Cida Bahiana. Ela vai ajudar Giulia Gam a compor a exímia quituteira da trama de Jorge Amado. ‘‘Nunca fui muito boa na cozinha’’, admite a atriz, que teve pouco tempo para aprender o ofício.
Giulia explica que o encanto de Flor está intimamente ligado à comida, ao tempero, sendo sua principal arma para conquistar o marido Vadinho, interpretado por Edson Celulari. Como Flor também dá aulas de culinária, Cida prepara os pratos e ensina Giulia como manusear os ingredientes e a comida. A presença da baiana nos bastidores tem deixado toda a equipe com água na boca. Entre as gravações, a comida é devorada em poucos minutos. ‘‘De todo o elenco, o Edson Celulari é o mais comilão’’, entrega Cida, que recebe muitos elogios do ator.
Mas Celulari não é o único guloso. ‘‘Todos pedem uma prova enquanto cozinho’’, conta a baiana. Foi o caso do diretor Mauro Mendonça Filho, que pediu para saborear um pouco de moqueca de camarão, prato muito usado na minissérie. ‘‘Cenas com comida são sempre um problema’’, reclama a produtora de arte Maria José. Para tapear os esfomeados, evitando que a comida acabe, Cida sempre leva um tira-gosto.
Entretanto, os tira-gostos não evitaram que os atores comessem uma moqueca de camarão que o diretor acabou desistindo de usar em uma das cenas. Mauro havia pedido para guardar o prato para aproveitá-lo em outra oportunidade. Mas, quando resolveu botar a moqueca em cena, já era tarde. ‘‘Tive que usar as cascas e o caldo na hora da gravação’’, conta Maria José, entre gargalhadas.
A culinária baiana também é motivo de descontração nos bastidores. É o caso da punheta - doce feito com farinha de tapioca, coco e açúcar -, também conhecido como bolinho de estudante. ‘‘Certa vez o Oscar Magrini me perguntou quanto eu cobrava para fazer o doce e eu respondi que dependia do tamanho’’, conta a quituteira, com ar malicioso.
Para Giulia Gam, o preparo do polêmico bolinho foi bastante prazeroso. ‘‘É muito gostoso pegar a massa e enrolá-la na mão’’, conta a atriz, que prefere chamá-lo carinhosamente de punhetinha. Ela, por sua vez, evita comer para não engordar, mas admite que é difícil resistir. ‘‘Eu adoro comida baiana, principalmente os doces’’, explica, assumindo-se apaixonada por cocada preta.
Outro motivo de brincadeira é o rebolado do vatapá, como ficou conhecida a forma de mexer a comida. ‘‘Na Bahia, mulher que não tem trejeitos na cozinha é chamada de quiabo duro. O remelexo é muito natural’’, esclarece Cida. Na sua opinião, Giulia aprendeu bem o rebolado. ‘‘Ela mexe todo o corpo, muito bonitinha’’, elogia.
Porém, nem tudo foi fácil para a atriz. Em uma das cenas, Dona Flor ensina às alunas a receita do caruru, onde o quiabo deve ser cortado bem rápido para não escorrer a baba. Como Giulia não conseguia ser tão ágil e o diretor queria que fosse feito um close nas mãos, quem acabou fazendo a cena foi Cida.
Mesmo com todas as aulas que teve, Giulia só poderá pôr em prática o que aprendeu durante a minissérie após o fim das gravações. ‘‘Ultimamente tenho andado muito ocupada e não tenho tido tempo para me aventurar na cozinha’’, queixa-se a atriz. Mas, se um dia esquecer o segredo do bom vatapá, Giulia sempre terá a chance de redescobri-lo ouvindo a música de Caymmi.

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