Não é a primeira, e nem será a ultima vez que um bom filme é batizado erroneamente no Brasil, espantando das salas uma substancial parcela de público que se tornou arredia justamente diante de títulos reducionistas como este. ''Dan in the Real Life'' é autêntica comédia romântica filiada em estilo e intenções ao melhor cinema independente. O que lhe confere um tom agridoce, bem menos convencional e que garante emoção e humor como temperos justos de uma sensível história de amor.
Se bem que não sejam rigorosamente filmes de autor, produções como esta se enquadram num segmento onde convivem pequenas mas muito sensíveis comédias de costumes, com personagens diferentes daqueles rasos do cinema industrial - a linha próxima de identificação é ''Pequena Miss Sunshine'' e ''Juno'', embora o aspecto ''família disfuncional'' esteja descartado. ''Eu, Meu Irmão...'' vai ainda um pouco mais longe nesta diferenciação. Seu diretor, Peter Hedges, já havia encontrado muita simpatia da crítica pelo roteiro de ''Um Grande Garoto'' e ''Do Jeito que Ela É'' (outro título desconetado). E não decepciona.
Dan (Steve Carrell), 43 anos, é jornalista e escritor, viúvo e pai relapso de três filhas, duas adolescentes. Ele vive às voltas com seus próprios fantasmas, contradições e frustrações que o tornaram um pai superprotetor e alguém com especial habilidade para sabotar a auto-estima, para se irritar facilmente e para se auto-reprimir. Com as filhas, Dan segue para o encontro anual em Rhode Island, na casa de seus pais (Dianne Wiest e John Mahoney). Ali encontrará não apenas os familiares, mas conhecerá e se apaixonará pela bela e cativante Marie (Juliette Binoche), sem saber que ela é namorada do irmão Mitch (Dane Crook).
Emotivo e realizado com graça e leveza, ''Dan in Real Life'' retoma regras de velha escola da comédia americana, onde temas complexos eram tratados em tom amável que permitia ao espectador refletir sobre questões difíceis, sem sobrecarregá-lo. A narrativa tem bom timing, e os muitos personagens reunidos no ambiente não ficam órfãos de traços psicológicos convincentes, inclusive aqueles com participação reduzida. Há, claro, espaço com folgas para o humor, especialmente no conflito de gerações entre Dan e as filhas e também na relação-que-não-pode-acontecer entre Dan e Marie.
O elenco é muito bom, coadjuvantes incluídos, mas o destaque vai mesmo para este comediante nato e notável que é Carrell, ator dono de amplo repertório interpretativo, capaz de expressar emoções diversas com convicção e em curtas frações de tempo. Ele é sem dúvida o ponto alto desta comédia que não passará à história do gênero, mas que se assiste com muito agrado. (C.E.L.J.)

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