São Paulo, 18 (AE) - No que se refere a Gianni Amelio, até que o espectador brasileiro é privilegiado: "Assim É Que Se Ria" é seu quarto longa-metragem lançado no País, o que é raro, atualmente, em se tratando de cineastas europeus, autores como Amelio e donos de uma obra de contornos tão humanistas quanto a dele. Antes, vieram "As Portas da Justiça", "Ladrão de Crianças" e "América - o Sonho de Chegar". Há, em todos eles, uma preocupação perceptível em usar o cinema como instrumento de compreensão de uma realidade histórica complexa, a italiana.
Em "As Portas da Justiça" (Porte Aperte, Portas Abertas, em português), baseado em livro de Leonardo Sciascia, Amelio busca analisar a realidade camponesa do seu país, por meio da investigação de um crime, na época da Itália fascista. Quem conduz a "investigação" é o juiz interpretado por Gian Maria Volonté, em um dos seus últimos papéis no cinema. Na verdade, o crime e seu autor são amplamente conhecidos. O que se discute é a aplicação da pena de morte e a satisfação dos instintos sanguinários do público. No original, o título refere-se a uma frase de Mussolini. Para o Duce, a Itália fascista era um país tão tranquilo que as pessoas podiam dormir com as portas abertas, pois não havia mais criminosos à solta.
"Ladrão de Crianças" é o seu primeiro trabalho com Enrico Lo Verso, que o acompanharia depois em América e, agora, em "Assim É Que Se Ria". Lo Verso faz o soldado encarregado de conduzir duas crianças ao sul do país. É também uma história de viagem, em que os vários "países" que compõem a Itália vão aparecendo sucessivamente. Por meio desse deslocamento, Amelio faz como que um corte transversal, no sentido anatômico do termo
revelando as diferentes camadas do todo assimétrico que é seu país.
"Em América - o Sonho de Chegar", seu trabalho mais maduro segundo boa parte da crítica, Amelio toca em um tema ingrato, o da imigração em massa dos albaneses, para a Itália, com a crise criada pelo fim do comunismo. O filme relembra que a Itália foi também um país de emigrantes, que, como a Albânia, mandou seus cidadãos mundo afora buscando um modo de vida melhor - tema retratado de forma fantasiosa pela novela "Terra Nostra". Na história, a dupla formada por Enrico Lo Verso e Michele Placido parte para a Albânia pós-comunista em busca de dinheiro fácil. Querem aproveitar-se do caos do país para fazer algum negócio de ocasião.
Precisam arranjar um testa-de-ferro e o encontram na figura de um velho italiano, meio louco, que até já esqueceu da língua natal. Da relação de Lo Verso com o velho (Carmelo Di Mazzarelli, em seu primeiro papel no cinema) nascem alguns momentos exemplares da dramaturgia cinematográfica moderna. Num deles, uma verdadeira epifania, o velho louco, que está voltando para a Itália, em um navio apinhado de albaneses, pensa que está indo para a América, em busca de fortuna e felicidade. São duas histórias de emigração que, superpostas, se completam. De tirar o fôlego. (L.Z.O.)

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