Tem mulher na cobertura do futebol
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quarta-feira, 02 de junho de 1999
Simone Mattos 
Uma curitibana está brilhando nos campos de futebol de São Paulo e do Rio de Janeiro. Com persistência e muita determinação, a jornalista Ana Zimmerman, 25 anos, conseguiu chegar onde queria e garante que vai investir cada vez mais no assunto futebol. Abrir espaço num universo exclusivamente masculino, entretanto, não foi uma tarefa fácil.
Um Fla-Flu (Flamengo x Fluminense) realizado em janeiro deste ano inaugurou a ala geral do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, levando quase cem mil pessoas ao local. No campo, a transmissão ao vivo, pela primeira vez na história da Rede Globo, foi feita por uma mulher.
Preconceito existe, segundo ela, mas nunca por parte das torcidas. O maior preconceito vem dos próprios colegas de profissão, explica. Ela lembra de uma situação constrangedora que passou, com o segurança de um estádio paulista. Ele não me deixava entrar, alegando que mulheres não trabalham em campo de futebol, conta. Além do aborrecimento, o impasse custou dez minutos preciosos de transmissão.
Formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), na turma de 1995, Ana explica que ainda na faculdade começou a se interessar pelo futebol, apesar de frequentar os estádios curitibanos desde criança, conta. O seu projeto final de encerramento do curso universitário explorou o tema esportes.
Fazer televisão no Rio de Janeiro, no entanto, não era a sua pretensão. Sempre achei que trabalharia no departamento esportivo de um jornal, em Curitiba. A ida foi o resultado de um trabalho que iniciou em janeiro de 1995, quando começou a fazer matérias esportivas no Rede Paranaense, em Curitiba, onde permaneceu até abril de 1998. Neste período, eu tinha duas preocupações: ganhar a confiança dos jogadores de futebol e passar credibilidade aos torcedores, que normalmente acham que mulher não entende de futebol, conta Ana. Para isso, ela procurava aprender os termos técnicos e usar a linguagem do futebolês.
A ajuda que recebeu do pai e dos irmãos nesse período foi fundamental, bem como a rotina de assistir a todos os programas, comentários e matérias esportivas em outros canais. É necessário falar do que se entende, afirma.
Em 1997, surgiu a primeira oportunidade de conhecer a Globo do Rio, quando cobriu férias de um colega. Depois do primeiro contato feito, em maio de 1998, ela foi definitivamente contratada pela emissora carioca. No mês seguinte, surpreendendo a todos, foi convocada para integrar a equipe que cobriria a Copa do Mundo, na França. Acho que o fato de eu falar francês contribuiu para a escolha, afirma.
Lá, a escola foi intensa e diária. Quando estamos do outro lado do mundo, com equipes reduzidas, aprendemos rapidamente toda a estrutura do jornalismo, explica. A principal, segundo ela, é o processo de geração de matérias, quando jornalistas de todo o mundo dependem de uma única central de transmissão, comandada por técnicos japoneses. Se perdermos os únicos dez minutos que temos para transmitir nossas matérias, todo o trabalho do dia é jogado no lixo, explica.
Outra experiência inesquecível que passou durante a Copa foi a cobertura dos incidentes provocados pela violenta torcida inglesa, os Hooligans, na cidade de Toulose. Cheguei a entrar num acampamento deles, sem o equipamento da TV, e passamos três dias em alerta, praticamente sem dormir.
A experiência que adquiriu na Copa, com certeza será útil na cobertura dos Jogos Pan-Americanos, que irão acontecer no Canadá, em julho. Pelo menos até agora, a minha ida está confirmada, antecipa a jornalista.
Independente deste evento, seu projeto é o de continuar transmitindo jogos ao vivo. Os planos incluem também a possibilidade de conquistar espaço nos comentários esportivos de estúdio ou em programas específicos. Estou batalhando por isso há quase um ano e acho que vou acabar abrindo um importante caminho para as mulheres, comenta.


