Uma curitibana está brilhando nos campos de futebol de São Paulo e do Rio de Janeiro. Com persistência e muita determinação, a jornalista Ana Zimmerman, 25 anos, conseguiu chegar onde queria e garante que vai investir cada vez mais no assunto futebol. Abrir espaço num universo exclusivamente masculino, entretanto, não foi uma tarefa fácil.
Um ‘‘Fla-Flu’’ (Flamengo x Fluminense) realizado em janeiro deste ano inaugurou a ala geral do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, levando quase cem mil pessoas ao local. No campo, a transmissão ao vivo, pela primeira vez na história da Rede Globo, foi feita por uma mulher.
Preconceito existe, segundo ela, mas nunca por parte das torcidas. ‘‘O maior preconceito vem dos próprios colegas de profissão’’, explica. Ela lembra de uma situação constrangedora que passou, com o segurança de um estádio paulista. ‘‘Ele não me deixava entrar, alegando que mulheres não trabalham em campo de futebol’’, conta. Além do aborrecimento, o impasse custou dez minutos preciosos de transmissão.
Formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), na turma de 1995, Ana explica que ainda na faculdade começou a se interessar pelo futebol, apesar de frequentar os estádios curitibanos desde criança’’, conta. O seu projeto final de encerramento do curso universitário explorou o tema ‘‘esportes’’.
Fazer televisão no Rio de Janeiro, no entanto, não era a sua pretensão. ‘‘Sempre achei que trabalharia no departamento esportivo de um jornal, em Curitiba’’. A ida foi o resultado de um trabalho que iniciou em janeiro de 1995, quando começou a fazer matérias esportivas no Rede Paranaense, em Curitiba, onde permaneceu até abril de 1998. ‘‘Neste período, eu tinha duas preocupações: ganhar a confiança dos jogadores de futebol e passar credibilidade aos torcedores, que normalmente acham que mulher não entende de futebol’’, conta Ana. Para isso, ela procurava aprender os termos técnicos e usar a linguagem do ‘‘futebolês’’.
A ajuda que recebeu do pai e dos irmãos nesse período foi fundamental, bem como a rotina de assistir a todos os programas, comentários e matérias esportivas em outros canais. ‘‘É necessário falar do que se entende’’, afirma.
Em 1997, surgiu a primeira oportunidade de conhecer a Globo do Rio, quando cobriu férias de um colega. Depois do primeiro contato feito, em maio de 1998, ela foi definitivamente contratada pela emissora carioca. No mês seguinte, surpreendendo a todos, foi convocada para integrar a equipe que cobriria a Copa do Mundo, na França. ‘‘Acho que o fato de eu falar francês contribuiu para a escolha’’, afirma.
Lá, a escola foi intensa e diária. ‘‘Quando estamos do outro lado do mundo, com equipes reduzidas, aprendemos rapidamente toda a estrutura do jornalismo’’, explica. A principal, segundo ela, é o processo de geração de matérias, quando jornalistas de todo o mundo dependem de uma única central de transmissão, comandada por técnicos japoneses. ‘‘Se perdermos os únicos dez minutos que temos para transmitir nossas matérias, todo o trabalho do dia é jogado no lixo’’, explica.
Outra experiência inesquecível que passou durante a Copa foi a cobertura dos incidentes provocados pela violenta torcida inglesa, os Hooligans, na cidade de Toulose. ‘‘Cheguei a entrar num acampamento deles, sem o equipamento da TV, e passamos três dias em alerta, praticamente sem dormir’’.
A experiência que adquiriu na Copa, com certeza será útil na cobertura dos Jogos Pan-Americanos, que irão acontecer no Canadá, em julho. ‘‘Pelo menos até agora, a minha ida está confirmada’’, antecipa a jornalista.
Independente deste evento, seu projeto é o de continuar transmitindo jogos ao vivo. Os planos incluem também a possibilidade de conquistar espaço nos comentários esportivos de estúdio ou em programas específicos. ‘‘Estou batalhando por isso há quase um ano e acho que vou acabar abrindo um importante caminho para as mulheres’’, comenta.

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