São Paulo - Com a longa indefinição sobre quem é o titular definitivo de discos de João Gilberto - o artista e a gravadora EMI travam uma disputa judicial desde os anos 1980, o que impede relançamentos -, advogados das duas partes envolvidas no caso falam dos prejuízos para a memória da música brasileira. O fato de discos de João Gilberto não ganharem reedições há anos chama a atenção pela magnitude do músico, mas o caso é apenas um entre muitos no mercado nacional. Atualmente, mais de 97% dos álbuns que compõem os acervos das maiores gravadoras do País estão fora de catálogo.
Somadas, Universal Music, Warner, EMI e Som Livre têm mais de 130 mil discos em seus acervos, mas apenas cerca de 3.600 são vendidos oficialmente hoje - a Sony Music foi a única das grandes gravadoras do País que não forneceu os seus dados.
A disparidade entre acervos e catálogos das chamadas majors faz com que, além de João Gilberto, artistas como Tim Maia, Vinicius de Moraes, Erasmo Carlos, Dorival Caymmi, Fagner, Edu Lobo, Maria Bethânia, Zé Ramalho, Nelson Cavaquinho, Cartola, entre outros, tenham alguns de seus trabalhos fora do alcance do público.
Das gravadoras citadas, os casos mais expressivos são os da Universal Music e da Warner, detentoras da maior quantidade de títulos brasileiros. A Warner tem em seu acervo cerca de 60 mil discos, dos quais 850 estão em catálogo atualmente - 1,42% do total. Já Universal tem 55 mil álbuns nacionais em seu acervo, com cerca de 1.500 (2,73%) deles em catálogo.
As outras duas gravadoras, Som Livre e EMI, apresentam uma relação acervo/catálogo mais equilibrada, mas têm número de fonogramas bem menor. Dos cerca de 9 mil discos do acervo da Som Livre, cerca de 550 (6,11%) estão em catálogo atualmente. Já a EMI oferece hoje ao público 700 (10%) dos seus 7 mil títulos.
"Há um desprezo absurdo por parte das gravadoras com seus catálogos. Não existe mentalidade de preservação. É uma pena, o jovem fica sem a possibilidade de encontrar a memória de sua própria cultura", diz o pesquisador e crítico musical Zuza Homem de Mello. "Se isso já se observa com os LPs, imagine com os discos de 78 rpm (rotações por minuto)... Se você pedir a matriz de um disco do Mario Reis (1907-1981), por exemplo, vão olhar como se você fosse um E.T.", completa.
Para os diretores das gravadoras, existem justificativas para a baixa quantidade de álbuns em catálogo. Segundo eles, os principais obstáculos são a diminuição do número de lojas de discos, o alto custo para armazenar as reedições em estoque (para CDs, o mínimo de prensagem são mil unidades; para vinil, 300), contratos antigos, originais dos álbuns em péssimo estado de conservação e negociações complexas com artistas e herdeiros.
"Enfrentamos alguns problemas como a forma de recuperar as masters, de rever contratos... E não adianta ter muitos discos em catálogo porque as lojas não têm como expor, você vai gastar uma fortuna em prensagem e armazenamento. Mas é claro que com o iTunes você tem mais espaço", diz José Éboli, presidente da Universal Music.
A gravadora de Éboli tem atualmente 1.400 discos em catálogo na loja de música da Apple. Já a Warner tem cerca de 2 mil títulos oferecidos no iTunes. "É um trabalho de arqueologia. Em muitos casos, você tem que mandar a fita para um forno para que ela seja recuperada, tem que encontrar os herdeiros do artista. Tudo tem um custo, não dá para fazer apenas por fazer, é um trabalho pesado, mas pretendemos lançar tudo o que for viável", diz Sergio Affonso, presidente da Warner Music Brasil.
"Sobre a baixa quantidade de discos físicos, é porque as lojas desapareceram. Mas o digital veio para atenuar isso e permite colocar todo o acervo ao alcance do público, sem contar que os custos são mais baixos. A memória não se perde", diz Jorge Lopes, diretor de vendas da EMI.

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