TEM 'GAMBIARRA' NO OURO VERDE
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de maio de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
A Verve Companhia de Dança, de Campo Mourão, conquistou espaço no cenário nacional no ano passado com o premiado espetáculo Truveja Pra Nóis Chorá. A montagem caiu nos palcos como grata surpresa por apresentar um resultado simples e cativante. A companhia foi considerada um dos destaques do Filo 2000 e agora volta ao festival com sua nova criação: Gambiarra. A Verve faz a estréia do trabalho em Londrina, em única apresentação, hoje, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde.
Enquanto Truveja... é um espetáculo lúdico e que beira a inocência, Gambiarra traça um perfil mais ácido do Brasil. Com ele, a Verve apresenta o cruzamento das três influências responsáveis pela base da formação do povo brasileiro o índio, o português e o africano e as consequências dessa mistura até hoje. Não temos linearidade. Utilizamos símbolos para fazer a abordagem da colonização sob a ótica lusitana e africana. Os personagens desse universo se cruzam em cena sem querer contar uma história. Eles trazem fragmentos dela e o público completa, sugere o diretor Fernando Nunes.
No palco, nem apenas dança, não somente teatro. O diretor dá sequência ao trabalho em que o corpo cênico da Verve é contaminado por dança, teatro e artes plásticas. Queria mais atitude, não só reprodução dos movimentos. Nesse espetáculo, os bailarinos ou intérpretes como o diretor prefere chamar o elenco misturam as linguagens para abordar a capacidade do brasileiro em dar a volta por cima em qualquer situação. Afinal, quem é que não fez uma gambiarra na vida?
Mas não é apenas a figura do espertalhão, daquele que dá um jeitinho em tudo, pontua. O Brasil não está mais tão ufanista. O espertalhão virou profissional. Todos estamos com o saco cheio desse tipo de esperteza. A gambiarra do pobre é diferente. Ele ainda é versátil, dá um jeito de sobreviver. O espetáculo faz essa avaliação do País, de uma forma crítica.
A montagem ressalta as pessoas que sobrevivem à base da criatividade, do gosto pelo trágico, da presença da violência e do humor que se mistura à vida real. Para o diretor, aceitação, resignação e celebração são invariavelmente protagonistas de qualquer enredo brasileiro.
Somos um povo celebrado por nossa passividade, mas o que vemos na realidade ao longo da nossa formação são formas de violência relacionadas à exclusão, a opressão, além do forte contraste social que suplanta à violência física. O espetáculo permeia o aspecto social, politizado, e se utiliza de um humor crítico, quase negro, para falar do caos humano.
Com Gambiarra, a Verve mostra também heranças latinas do povo brasileiro gente que gesticula, fala muito e, no caos, acaba se entendendo. Nós adoramos falar e muito! No espetáculo, o texto vem reforçar isso de maneira solta. Alguns momentos nem se repetem em toda apresentação, devido ao improviso, a uma gambiarra no texto, brinca.
O diretor Fernando Nunes observa que Gambiarra é um espetáculo vivo e, portanto, está em constante processo de transformação. A dança contemporânea tem a obrigação de pesquisar novas experiências e o corpo tem que ser preparado para um novo trabalho. É isso que a companhia fez nos oito meses de montagem e continua fazendo a cada apresentação.
Gambiarra, espetáculo da Verve Cia. de Dança, de Campo Mourão (PR). Concepção e direção: Fernando Nunes. Coreografias: Fernando Nunes, Mariusa Bregoli e Moacir Coletto. Elenco: Mariusa Bregoli, Moacir Coletto, Valdir Rocha, Austin Andrade e Juliana Pepinelli. Luz e som : Silvio Vilczak. Apoio: Fundação Cultural e Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Campo Mourão. Duração: 1 hora.


