TELEVISÃO/ENTREVISTA - Uma pausa na comédia
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terça-feira, 03 de outubro de 2006
Mariana Trigo<br> TV Press 
Eliane Giardini acha que chegou a hora de se despedir das personagens engraçadas na tevê. Pelo menos por um tempo. Na pele da divertida carola Eva de ''Cobras & Lagartos'', na Globo, a atriz nascida em Sorocaba, interior paulista, que completa 53 anos no próximo dia 20 de outubro, garante que vai fechar o ciclo dos papéis burlescos na telinha. Esta fase de mulheres divertidas começou com a Lola de ''Explode Coração'', há 11 anos. De lá para cá, apenas as minisséries permitiram que a atriz vivesse personagens mais sérias, como a artista plástica Tarsila do Amaral em ''Um Só Coração'' ou a destemida Caetana, que está no ar em ''A Casa das Sete Mulheres''. Todas, sem exceção, com uma aura de sensualidade implícita em cada cena. ''Eu me identifico sempre com mulheres que dão viradas, que são fortes e destemidas'', explica.
A Eva, de tão cômica, beira o humor pastelão. Uma beata fervorosa e reprimida que quando tem uma oportunidade, se transforma. Como quando virou a cigana Esmeralda. Além disso, vai ser revelado que o marido Serafim, do Otávio Augusto, não é pai de nenhum filho dela. Como tem sido viver uma carola às avessas?
Eu imaginava que havia uma razão para essa mulher ser mais do que beata, louca, fanática religiosa. Mas a gente nunca sabe o que o autor reserva. A Esmeralda deu um contraponto para a personagem. Ter uma possibilidade de mostrar um mundo reprimido é engraçado. Nunca sei para onde ela vai. Ela me parece um pouco a Terezinha daquela música ''O primeiro me chegou, como quem vem do florista...''. Sabe assim? É muita brincadeira, um texto no qual não cabem abordagens psicológicas, grandes construções de personagens.
Durante muito tempo você fez mulheres dramáticas na tevê. Mas desde ''Explode Coração'' suas personagens em novelas estão cada vez mais cômicas. Por quê?
Engraçada essa nova fase... Outro dia estava conversando sobre isso com a minha filha mais nova, Mariana, que está fazendo teatro. Ela me perguntou sobre as dificuldades das cenas de choro. Esse é o maior drama de quem está começando a carreira. Mas chorar está longe de ser o problema. É infinitamente mais fácil fazer uma cena dramática do que uma cômica. Há alguns anos, se me perguntassem se eu fazia comédia, diria que não. Nem eu sabia que poderia fazer. Mas não sou aquela atriz que pega qualquer texto e o transforma em graça. Isso é tipicamente dos atores cariocas, que têm essa facilidade, como o Pedro Cardoso ou o Luiz Fernando Guimarães. Eles dão uma entonação engraçada para qualquer texto. Não sou esse tipo de atriz. Preciso de uma situação cômica para fazer uma comédia em cima.
No início de ''Cobras & Lagartos'' eram visíveis na Eva algumas características da viúva Neuta, de ''América''. Você identifica semelhanças entre as personagens?
Os personagens são uma roda gigante, um sobe e desce. A transição foi muito rápida entre as duas. Quase que emendei os dois trabalhos, até porque o ano que vem eu pretendo fazer apenas teatro. Na tevê, mais do que um personagem, com alguns anos de trabalho, o ator constrói identidades. Com isso, as pessoas vão ver em que tipo de personagem você se encaixa melhor, qual o seu elemento. A tevê não tem tempo de elaboração para um personagem como no teatro, que você pensa no jeito de andar, de sentar, de olhar. A escalação é de acordo com o tipo que sabem que você faz bem. O ator é que tem de se cuidar para, de tempos em tempos, propor um acréscimo, uma outra face, um outro lado, para que não submergir nesse estereótipo, para não virar um ator de um personagem só.
Você teme por emendar personagens parecidas?
É uma reflexão de cada ator. Nossa vida é feita de escolhas. Eu sei que está na hora de dar uma parada nesse tipo que venho fazendo. Preciso propor um novo tipo de personalidade, assim como fiquei muito tempo com papéis dramáticos, agora estou com os cômicos. Sou de fases. Tem personagens que gosto muito, como a Neuta, que ia do drama à comédia. Tinha um espectro maior de possibilidades. A Eva é só comédia. Nazira também era comédia pura. Preciso parar porque senão vou começar a emendar vários personagens parecidos. Tenho de esperar a vida me mudar um pouco para saber que linha seguir.
Isso ficou mais latente depois de viver a Neuta, uma viúva que se apaixonava por um jovem peão?
R - Sinto que tenho tido uma grande identificação com mulheres que dão viradas, que não são conformadas, mas ativas, que dão esperanças.
Independentemente da dramaticidade ou comicidade das suas personagens, todas sempre exploraram a sensualidade. Por quê?
Acho bom que seja assim. Isso enriquece as personagens. Na minha faixa etária, cada vez mais atrizes são sensuais. É o retrato de uma época. A minha geração é de transição, traz este prazo dilatado de sensualidade. Quem nasceu nos anos 50, como eu, pegou uma grande revolução cultural em 1968, que tirou tudo do lugar e reorganizou os conceitos de outra forma. Hoje vejo os velhinhos na terceira idade viajando, indo ao teatro, saindo. Na época dos meus pais, o idoso cuidava dos netos, administrava um final de vida. A minha geração tem um ganho extra de juventude, de sensualidade ainda, de uma qualidade de vida, de um corpinho mais bacana. Você pega uma Betty Faria com um corpo de bailarina com 60 anos. Sou uma das pessoas que empurram a idade.


