Televisão lembra os cem anos de nascimento do mestre do terror
Luiz Carlos Merten
Agência Estado
Começa e termina com citações de François Truffaut. No começo: Ele não foi só o homem que sabia demais; foi também o que mais nos emocionou. No fim: Ele não deu mais intensidade só para o cinema; fez a própria vida mais intensa. Ele - Alfred Hitchcock, tal como é lembrado no documentário Dial H for Hitchcock. Com o título Cem Anos de Suspense, passa no dia 13 no Telecine 5. Comemora-se justamente na sexta-feira, dia 13, o centenário de nascimento do genial cineasta. A data não vai ser lembrada só pelo canal pago da Net. Hitchcock receberá diversas homenagens no Brasil.
A Globo antecipou-se, mostrando durante toda a semana passada, de segunda a sexta, cinco filmes do mestre: começou com Psicose e concluiu com Os Pássaros. Na sexta-feira 13, o Festival de Gramado abre espaço na sua programação para exibir, à meia-noite, o mais belo poema necrófilo do cinema: Um Corpo Que Cai. Quarta-feira, o Eurochannel (da TVA) exibe Assassinato, ao qual se seguirão, na quarta seguinte, dia 18, The Skin Game e, no dia 25, Correspondente Estrangeiro.
Também no dia 13, o Telecine 5 engata a exibição do documentário Hitchcock, Cem Anos de Suspense com a de Um Barco e Nove Destinos. No sábado, mostra Frenesi; no domingo, Marnie - Confissões de uma Ladra; na segunda, Cortina Rasgada. Há um motivo especial para você sintonizar no Telecine nesse dia: o canal vai exibir o thriller de espionagem com Paul Newman na versão integral. Na Globo, Cortina Rasgada já foi exibido até a exaustão, mas sempre sem a cena do assassinato de Gromek, a melhor do filme.
Nada mais hitchcockiano do que essa cena. Cansado da facilidade com que James Bond matava nos filmes de espionagem produzidos nos anos 60, Hitchcock quis mostrar como é difícil matar uma pessoa. No filme, o personagem de Newman, um cientista americano que fugiu para o Leste Europeu vai até uma granja fazer um contato. É seguido por um agente comunista. Ele e a granjeira precisam matar esse homem, mas não podem fazer barulho para não despertar a atenção do taxista que trouxe Newman. Matam-no no forno. Hitchcock não era apenas um mestre da angústia. Era também um mestre da ironia. O forno, na Alemanha, evoca os campos de extermínio dos nazistas.
Em vídeo, a possibilidade de o espectador fazer o próprio ciclo para homenagear o cineasta é tanto maior porque há muitos filmes do diretor nas locadoras, entre eles alguns dos melhores: Interlúdio, Janela Indiscreta, Um Corpo Que Cai, Psicose e Os Pássaros.
Hitchcock não foi apenas o mestre que elevou o medo à condição de uma das belas-artes. Era, como Stanley Kubrick, um homem de cinema no seu estado mais puro. Foi um grande criador de formas, que fez avançar a linguagem do cinema. Janela Indiscreta antecipa Michelangelo Antonioni (Blow Up), Um Corpo Que Cai antecipa Alain Resnais, Psicose é um dos filmes mais imitados de todos os tempos. A cada um seu Hitchcock. Ele gostava mais de A Sombra de uma Dúvida, entre todos os seus filmes. Alguns admiradores preferem Intriga Internacional, outros, Interlúdio. Um Corpo Que Cai é o mais perfeito dos filmes de Hitchcock. Mas à sua perfeição se pode preferir a desoladora beleza da obra-prima imperfeita que é Marnie.





