São Paulo, 06 (AE) - Começa e termina com citações de François Truffaut. No começo: "Ele não foi só o homem que sabia demais; foi também o que mais nos emocionou." No fim: "Ele não deu mais intensidade só para o cinema; fez a própria vida mais intensa." Ele - Alfred Hitchcock, tal como é lembrado no documentário "Dial H for Hitchcock". Com o título "Cem Anos de Suspense", passa no dia 13 no Telecine 5. Comemora-se justamente na sexta-feira, dia 13, o centenário de nascimento do genial cineasta. A data não vai ser lembrada só pelo canal pago da Net. Hitchcock receberá diversas homenagens no Brasil.
A Globo antecipou-se, mostrando durante toda a semana, de segunda a sexta, cinco filmes do mestre: começou com "Psicose" e conclui, hoje (sexta-feira), com "Os Pássaros". No dia 13, o Festival de Gramado abre espaço na sua programação para exibir, à meia-noite, o mais belo poema necrófilo do cinema: "Um Corpo Que Cai". Na quarta, dia 11, o Eurochannel (da TVA) exibe "Assassinato", ao qual se seguirão, na quarta seguinte, dia 18, "The Skin Game" e, no dia 25, "Correspondente Estrangeiro".
Também no dia 13, o Telecine 5 engata a exibição do documentário Hitchcock, "Cem Anos de Suspense" com a de "Um Barco e Nove Destinos". No sábado, mostra "Frenesi"; no domingo, "Marnie - Confissões de uma Ladra"; na segunda, "Cortina Rasgada". Há um motivo especial para você sintonizar no Telecine nesse dia: o canal vai exibir o thriller de espionagem com Paul Newman na versão integral. Na Globo, "Cortina Rasgada" já foi exibido até a exaustão, mas sempre sem a cena do assassinato de Gromek, a melhor do filme.
Nada mais hitchcockiano do que essa cena. Cansado da facilidade com que James Bond matava nos filmes de espionagem produzidos nos anos 60, Hitchcock quis mostrar como é difícil matar uma pessoa. No filme, o personagem de Newman, um cientista americano que fugiu para o Leste Europeu vai até uma granja fazer um contato. É seguido por um agente comunista. Ele e a granjeira precisam matar esse homem, mas não podem fazer barulho para não despertar a atenção do taxista que trouxe Newman. Matam-no no forno. Hitchcock não era apenas um mestre da angústia. Era também um mestre da ironia. O forno, na Alemanha, evoca os campos de extermínio dos nazistas.
Em vídeo, a possibilidade de o espectador fazer o próprio ciclo para homenagear o cineasta é tanto maior porque há muitos filmes do diretor nas locadoras, entre eles alguns dos melhores: "Interlúdio", "Janela Indiscreta", "Um Corpo Que Cai", "Psicose" e "Os Pássaros".
Hitchcock não foi apenas o mestre que elevou o medo à condição de uma das belas-artes. Era, como Stanley Kubrick, um homem de cinema no seu estado mais puro. Foi um grande criador de formas, que fez avançar a linguagem do cinema. "Janela Indiscreta" antecipa Michelangelo Antonioni ("Blow Up"), "Um Corpo Que Cai" antecipa "Alain Resnais", "Psicose" é um dos filmes mais imitados de todos os tempos. A cada um seu Hitchcock. Ele gostava mais de "A Sombra de uma Dúvida", entre todos os seus filmes. Alguns admiradores preferem "Intriga Internacional", outros, "Interlúdio". "Um Corpo Que Cai" é o mais perfeito dos filmes de Hitchcock. Mas à sua perfeição se pode preferir a desoladora beleza da obra-prima imperfeita que é "Marnie".

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