São Paulo, 12 (AE) - Completa-se amanhã o centenário de nascimento de Alfred Hitchcock. Há várias homenagens previstas para o mestre do suspense. A "Bandeirantes" programou "Intriga Internacional". É uma das obras-primas do grande cineasta, um filme que oferece uma sucessão de cenas impressionantes, cada uma melhor do que a outra. O melhor da programação dedicada a Hitchcock está, porém, na TV paga, mais exatamente no Telecine 5, da Net. Se você é hitchcockiano de carteirinha, não perca o documentário "Hitchcock - Cem Anos de Suspense", de Ted Haimes, que passa às 20 horas.
No original, chama-se "Dial H for Hitchcock", título que remete a um dos grandes sucessos (de público, mais do que de crítica) do cineasta nos anos 50: "Disque M para Matar". O documentário termina com uma citação de François Truffaut, o crítico e cineasta que foi tiete assumido do artista. No livro com a entrevista que deu a Truffaut ("Hitchcock Truffaut", da Editora Brasiliense), o mestre pede ao discípulo, diversas vezes
que refreie seu entusiasmo. Mas o que Truffaut diz de Hitchcock é definitivo: "Ele não tornou apenas o cinema mais intenso, tornou também a vida mais intensa." De quantos diretores alguém pode dizer isso? De não muitos, infelizmente.
O documentário é maravilhoso. Estréia simultaneamente nos Estados Unidos, no Brasil e em Portugal. Foi produzido para o centenário. É até certo ponto tradicional. Entrevista diretores que têm Hitchcock no seu panteão particular (Jonathan Demme e Wes Craven), documenta o depoimento de atores e atrizes que trabalharam com ele (Tippi Hedren, a Marnie, por exemplo), registra o testemunho da filha de Hitchcock (Patricia), que também foi uma das intérpretes de "Pacto Sinistro". Tradicional, mas criativo.
Haimes viu todos os filmes de Hitchcock, leu tudo o que se escreveu sobre ele, teve acesso a filmes particulares da família, que mostram o cineasta com a mulher (Alma Reville) em diversos momentos de sua vida. Destaca a importância que sobre ele exerceu Alma. Mas o melhor de "Hitchcock - Cem Anos de Suspense" é essa impressionante sucessão de planos escolhidos em diferentes filmes, que mostram o herói ou a heroína hitchcockianos como um ser atormentado, angustiado ou acuado.
São olhares, gestos, crispações de membros que passam de um filme para outro e que o espectador, com certeza, pode lembrar isoladamente, mas ganham novo sentido quando se os vê, como aqui, um ao lado do outro, duas imagens superpostas, três ou quatro interligadas para produzir um outro significado no inconsciente do público, de acordo com o preceito eisensteiniano da montagem de atrações.
Por meio de depoimentos e do texto lido por Kevin Spacey
Haimes toca numa questão decisiva. Donald Spotto já investigou (em livro) o lado sombrio do gênio. O diretor não segue necessariamente sua tese (de que havia um Hitchcock paranóico e obsessivo), mas deixa claro que, de alguma forma, esse homem entendia o lado mais sombrio da natureza humana. Não só entendia
como procurava expressá-lo na tela.
Admiradores como Robin Wood, autor do livro "Hitchcocks Films", acham que o tema hitchcockiano por excelência é a ordenação do caos. Ao manipular as emoções do público, o mestre não apenas elevou o medo à condição de uma das mais belas artes. Fez psicanálise no cinema. Não é por acaso que já virou lugar-comum dizer-se que, com as chaves de Freud, fica fácil salvar qualquer filme de Hitchcock. Nasceram, realmente, um para o outro, sendo curioso que o centenário do nascimento do diretor seja também o da interpretação dos sonhos de Freud.
A cada um seu Hitchcock. O próprio cineasta preferia "A Sombra de uma Dúvida", entre todos os filmes que dirigiu. Há fãs que se extasiam com "Interlúdio", "Janela Indiscreta" ou "Um Corpo Que Cai", todos fartamente citados no documentário. Qualquer que seja a preferência, há o que não deixa de ser uma trilogia do mestre - três filmes que formam um bloco de notável integridade e coerência. "Psicose" desce ao inferno da mente enferma de Norman Bates, "Os Pássaros" revela o apocalipse, segundo Hitchcock, ampliando na perspectiva do fim do mundo o que não deixa de ser uma situação edipiana que dá prosseguimento à de "Psicose". "Manie, as Confissões de uma Ladra" é a história de uma versão feminina de Norman Bates (e que pode ser curada). São obras de uma riqueza que só um artista superior poderia produzir.

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