Os irmãos Nana, Dori e Danilo Caymmi já perderam as contas de quantas músicas já gravaram, compuseram ou produziram para trilhas de novela. Juntos, são quase 80, calculam eles. ''Só eu já lancei um CD com músicas que entraram em novelas e ainda sobrou material para mais uns três ou quatro'', arrisca Nana. Por isso mesmo, o diretor musical da Record, Márcio Antonucci, não pensou duas vezes quando soube que Leila Pinheiro, convidada para gravar a música de abertura de ''Essas Mulheres'', havia desistido da empreitada. Na mesma hora, ele passou a mão no telefone e convidou os filhos de Dorival Caymmi para executarem a tarefa. ''Sou noveleira para caramba e posso garantir que, a cada dia, as trilhas enriquecem ainda mais as novelas. As emissoras me chamam porque sabem que sou pé-quente'', gaba-se Nana, que já teve músicas tocando na Globo, SBT e Record.
Apesar do transtorno que causou, Márcio Antonucci afirma que recusas como as de Leila Pinheiro são mais frequentes do que se imagina. Principalmente de artistas que temem sofrer represálias da Globo por terem músicas incluídas na trilha sonora de outras emissoras, como SBT e Record. ''Nesses casos, só costumam aceitar os que estão acima do Bem e do Mal, como Chico Buarque, Luiz Melodia e Fagner'', observa Antonucci, citando o nome de três cantores que fazem parte da trilha de ''Essas Mulheres''. Convite aceito, Dori ficou com a parte mais difícil do trabalho: fazer o arranjo da música ''Pop Zen'', do compositor baiano Alexandre Leão. ''Sem querer desmerecer ninguém, tive de transformar um maracatu pop numa marcha-rancho para melhor combinar com o clima da novela. Só espero que o compositor não venha brigar comigo'', brinca Dori.
Pior do que alterar o arranjo de uma música já pronta só mesmo ter de compor por encomenda uma nova com um mínimo possível de informações. Esse é frequentemente o maior dilema enfrentado por Danilo Caymmi. ''Na maioria das vezes, o 'briefing' dado pelo diretor é a sinopse da sinopse. Aí, você tem de se virar para fazer o melhor possível'', entrega ele, que acredita ter obtido bons resultados nos temas de abertura das minisséries ''Tereza Batista'' e ''Riacho Doce'', ambas da Globo. A música ''O Bem e o Mal'', da abertura de ''Riacho Doce'', por exemplo, fez tanto sucesso que, segundo ele, virou referência de música por encomenda. ''Volta e meia, aparece alguém pedindo: 'Ah, faz uma música do tipo 'Riacho Doce...''', diverte-se Danilo, sem saber explicar exatamente o que significa ''uma música do tipo 'Riacho Doce'''.
Contratempos à parte, todos gostam de ter suas músicas numa trilha sonora de novelas. Nana Caymmi é uma delas. Até gravar ''Resposta ao Tempo'', parceria de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc que virou tema de abertura da minissérie ''Hilda Furacão'', da Globo, ela nunca havia ultrapassado a marca das 100 mil cópias vendidas. ''Ter uma música na abertura de uma novela é o paraíso porque sempre empurra o disco'', admite ela. Empurra o disco e renova público. Quando gravou a música ''Fascinação'' para a abertura da novela de mesmo nome no SBT, por exemplo, cansou de ser abordada na rua por... crianças. ''Elas diziam que esperavam o final de 'Chiquititas' só para me ouvirem cantar na novela que começava em seguida'', relata, cheia de si.
Responsável pela trilha sonora de ''Essas Mulheres'', Márcio Antonucci já trabalha no ramo há quase 30 anos. Integrante da dupla Os Vips, formada com o irmão Ronaldo, foi ele quem levou Mariozinho Rocha para a Globo, em 1985. Das trilhas que produziu, orgulha-se, principalmente, de ''Roque Santeiro'', que resultou em dois volumes. Até hoje, lamenta ter sido voto vencido na eleição que escolheu a música tema da novela. Ele e Paulo Ubiratan escolheram ''Isso Aqui Tá Bom Demais'', cantada por Chico Buarque e Dominguinhos, e Daniel Filho e Boni, ''Santa Fé'', por Moraes Moreira. O voto de Minerva foi dado por Diogo, filho de Boni, então com 7 anos. ''Hoje em dia, ninguém lembra da música do Moraes, não é mesmo? Sinal de que eu e o Ubiratan estávamos certos'', diverte-se Márcio.

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