ENTREVISTA
O senhor das horas
Sempre antes de começar a gravar mais um ''Altas Horas'', Serginho Groisman tira alguns minutos para conhecer a platéia. Cumprimenta os jovens, fala com um e com outro, adianta quais serão as bandas e os convidados da noite. Assim, o paulistano de 54 anos acredita que ganha uma certa intimidade com os adolescentes espalhados pelo estúdio da Globo, em São Paulo. ''Este é um espaço onde eles sabem que podem se expressar'', explica Serginho, que também apresenta e dirige o ''Ação'', nas manhãs de sábado, voltado para iniciativas na área de educação e voluntariado.
De fato, a maneira simples com que Serginho Groisman conduz o ''Altas Horas'' surpreende. Enquanto apresentadores de programas jovens tentam se diferenciar pelo visual ''moderno'', profusão de gírias e atitudes ''ousadas'', Serginho prefere ser apenas um ''mediador'' de debates. Tem sido assim desde que estreou na tevê, em 1988, à frente do extinto ''TV Mix'', da Gazeta. Já na Cultura, comandou o ''Matéria Prima'', realizado no mesmo formato que se consagraria depois no ''Programa Livre'', do SBT, onde permaneceu por oito anos. Desde 1999 está na Rede Globo
Por que você tenta aparecer o menos possível no ''Altas Horas''?
Porque é a nossa platéia quem tem a palavra. Ela faz as perguntas, tem nas mãos a condução do programa. Tento ser mais um mediador que cuida da distribuição da palavra. Minha intenção é criar um clima menos televisivo e mais informal. A idéia é criar um espaço onde as pessoas possam se ver, se ouvir, que tenha proximidade, temperatura.
O que o programa conquistou nestes três anos?
Na verdade, preciso confessar uma coisa. Quando entrei na Globo, eu sabia que a emissora tinha certos compromissos. Então, no primeiro ano, fiz um programa claramente baseado em atrações mais populares, que dariam audiência. Eles nunca se meteram, foi uma decisão minha. Daí, fui promovendo uma transformação gradual, no ritmo da aceitação das pessoas. Investimos em quadros e atrações que são de difícil aceitação. E, hoje, a gente tem um programa que está de acordo com aquilo que eu sempre fiz e com aquilo em que acredito.
E em que você acredita?
Quando comecei a fazer televisão, eu procurei um sentido que não fosse só o do prazer pessoal. Queria contribuir num veículo que, na minha opinião, é o mais superficial que existe. Não acredito que a televisão seja transformadora. Mas ela pode ser, ao menos, um ponto de reflexão. Por isso, criei um quadro em que converso com a platéia. Nele, já descobri coisas surpreendentes. Já peguei gente que bate, que apanha, gente preconceituosa, homossexual que se assume no ar... Esse é um quadro que faz um pouco a radiografia dos adolescentes.
E, ao mesmo tempo, mostra que qualquer um tem uma história interessante...
Exatamente. Mas não é só isso. A iluminação do ''Altas Horas'' é igual para todo mundo. Tanto para o entrevistado quanto para a banda ou a platéia. Isso é para mostrar que não tem ninguém mais importante que o público. E os convidados também não ficam no centro. Ficam quase colados com a platéia. Eu eliminei o palco, vou eliminando as coisas... Sempre pensei em como seria possível democratizar um pouco a televisão. Para que ela não fosse um veículo de mão única. Mas é só uma experimentação, uma idéia para mostrar que o telespectador pode interferir num programa de tevê.
A que você atribui a sua identificação com o jovem?
Eu acho que vem de conceitos que eu trago, de nunca ter a palavra final. Acho que é um respeito ao pensamento das pessoas. Poder dar alguns argumentos, mas deixar que elas tirem as conclusões finais. E também não querer se comportar como um adolescente. Não preciso desses artifícios para a minha aproximação.
E como foi conquistar esse público da madrugada?
No SBT eu dava 3, 4 pontos de média. Chegava, no máximo, a 8 pontos quando era uma reprise do Mamonas Assassinas, depois que eles morreram, claro... Na Globo é diferente. Se um telespectador sai do ''Altas Horas'', ele não muda de canal. Desliga e vai dormir. Por isso, eu faço o primeiro bloco de quase uma hora. Sei que quando chega o intervalo muita gente cai no sono. Assim, o programa começa com uma audiência de 14, 15 pontos, e acaba com 8. Só com os insones.

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