Quase um ano depois do tão comentado beijo gay não ter sido levado ao ar no último capítulo da novela ''América'' (Globo), em novembro de 2005, um novo casal homossexual estréia na teledramaturgia nacional, na mesma emissora e mesmo horário: Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Picchi), de ''Páginas da Vida''.
O casal entrou no horário nobre sem chamar muito a atenção, como esperava o autor Manoel Carlos, que manteve as identidades dos intérpretes em segredo até poucos dias antes da entrada dos personagens na trama.
''Quando isso (a polêmica de ''América') aconteceu, eu estava fora do Brasil, mas ouvi falar muito sobre tudo o que houve'', diz o ator Thiago Picchi, 30, que encarna um professor de flauta em ''Páginas''. Ele ficou sabendo que seu personagem seria homossexual apenas uma semana antes de começar a gravar. ''Fiquei surpreso, pois só tinha conhecimento da profissão dele. Cada vez que o Manoel Carlos escreve uma novela surpreende os atores, que não são informados com antecedência sobre os destinos de seus personagens'', diz o rapaz, filho dos atores Elizabeth Savalla e Marcelo Picchi.
O companheiro de cena dele, Fernando Eiras, que interpreta Rubinho na trama global, considera ser importante a abordagem do assunto na TV. ''É fundamental para a qualidade de vida da sociedade que os veículos de comunicação discutam com clareza de raciocínio o livre-arbítrio na vida humana. Atuando, assim, contra qualquer forma de intolerância e preconceito'', fala.
Diferentemente de outros casais gays das novelas, Picchi e Eiras ainda não protagonizaram cenas quentes. E devem continuar assim. ''Eles formam um casal bem-resolvido, estável e feliz. A relação é na medida certa, tem credibilidade, intimidade e carinho, sem alarde, sem afetação'', avalia Picchi.
O autor da trama ainda faz mistério sobre qual será o futuro do casal na história. ''Não sabemos nada sobre o futuro deles. Vamos construindo os personagens em cima dos textos que recebemos'', conta Picchi. Mas Manoel Carlos não descarta a possibilidade de discutir a adoção de um bebê por homossexuais. Outro drama que pode ser mostrado é o médico ser vítima de preconceito no hospital onde trabalha - administrado por freiras. ''Ainda não sei se isso será possível. Vamos ver com o desenrolar da novela'', desconversa o autor.
Sobre a possibilidade de haver alguma cena de beijo entre os dois, Picchi, cujo personagem dá aulas na casa de cultura AMA, confessa estar ansioso. ''Adoraria saber, mas não conseguimos nenhuma pista. Se tiver de rolar o beijo, vai ser tranquilo. Já conhecia o Fernando há algum tempo, pois ele é amigo dos meus pais. Não vejo problema em uma cena dessas'', diz. ''Para o ator, o importante é a perspectiva humana que o texto nos dá desse personagem'', fala Eiras, que confia na boa aceitação do casal pelo telespectador. ''Propomos ao público um pensamento maduro e justo.''

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