Não importa o sexo, a idade ou a classe social. As emissoras querem atrair todo e qualquer telespectador. Em especial nas telenovelas, capazes de abarcar um amplo espectro de público. E cada vez mais os autores de folhetins procuram histórias capazes de conquistar a família inteira. ''Hoje em dia não se pode falar em públicos-alvos diferenciados. Portanto uso elementos que funcionam para todos os públicos e misturo abordagens, crio numa mesma situação drama e comédia, heroísmo e vilania'', argumenta Marcilio Moraes, autor de ''Vidas Opostas'', da Record.
Assim como Marcilio, Carlos Lombardi, autor de ''Pé na Jaca'', da Globo, também acredita que hoje não haja mais um público-alvo tão claro como antigamente. ''A Globo tenta alcançar praticamente todos os públicos e não tenho mais noção exata de quem está em casa a que horas'', admite. Segundo o autor da trama das sete, os hábitos da população brasileira mudaram e há muita diferença na resposta do público de hoje e o de dez anos atrás. ''Ouço falar, mas não de modo científico, no aumento dos públicos das classes C, D e E . Não sei se isso aconteceu ou se é uma lenda urbana'', ironiza Lombardi.
Esse aumento do público pode ser notado nas novelas do horário nobre. Afinal, nesse período, há telespectadores das mais variadas faixas etárias e classes sociais. Para tanto, os autores desse horário optam por uma abordagem generalista, que atinja a todos. ''Páginas da Vida'', por exemplo, tem ''ingredientes'' que agradam das crianças aos mais velhos. ''Procuro fazer uma novela cheia de acontecimentos verossímeis, porém fictícios para que o público goste, se divirta e, principalmente, se identifique'', verifica Manoel Carlos, autor da trama global das oito.
Outro autor que se preocupa em rechear suas novelas com elementos referentes aos mais variados públicos é Gilberto Braga, autor de ''Paraíso Tropical'', próxima novela das oito da Globo. ''Suceder um sucesso arrebatador como 'Páginas da Vida' aumenta minha terrível responsabilidade'', exagera o experiente Gilberto, que promete oferecer aos telespectadores uma novela cheia de suspense, comédia, aventuras e, principalmente, amor.
Por não saber exatamente quem vai assistir às suas novelas, Tiago Santiago, supervisor de textos da Record, conta que também costuma escrever para a família inteira. ''Sempre faço minhas novelas pensando das crianças aos avós, mesmo que seja no horário das dez'', confessa o dramaturgo, que já começou a escrever ''Caminhos do Coração'', próxima novela das dez da Record, ainda com título provisório. Já Aimar Labaki, autor de ''Paixões Proibidas'', da Band, acredita que nada substitui o bom senso. Tanto que, em sua novela - exibida às 22 horas - usa e abusa de cenas ''calientes'' e de nudez. ''Toda novela tem de ter uma cara bem definida, um equilíbrio próprio e constante dos diversos elementos'', defende Labaki.
Sem saber os públicos-alvos das novelas, os autores escrevem para atingir todo o público ''noveleiro''. Há algumas exceções, especialmente nas tramas para jovens, como ''Malhação'', da Globo, e ''Alta Estação'', da Record. ''Mas, mesmo sendo originalmente para o público jovem, 'Malhação' é assistida pela família inteira'', garante Ricardo Waddington, diretor de núcleo da Globo.
O que se sabe é que, para atingir qualquer público, os problemas que os personagens das novelas vivem precisam ter ressonância nos problemas básicos dos espectadores. ''Para uma novela ser bem aceita é preciso haver identificação e simpatia do público para com os personagens simpáticos e antagonismo em relação aos vilões'', argumenta Lombardi.
Melhor elaboradas e mais caras, as minisséries exigem um trabalho de pesquisa minucioso e dedicação integral por parte dos autores e do elenco. Por terem como alvo um público mais exigente e culto, esses produtos da ficção fazem de tudo para envolver o telespectador numa trama dramática e cheia de surpresas. Glória Perez, autora da minissérie ''Amazônia - De Galvez a Chico Mendes'', no ar na Globo, conta que costuma escrever suas minisséries com antecedência e de forma organizada e clara a fim de construir a emoção em quem as assiste. ''Para se ter uma idéia, comecei a pesquisar sobre a minissérie logo depois de 'América'. Foi um desgaste em termos de pesquisa'', declara Glória.
Assim como as novelas, as minisséries também apostam na empatia do público com os personagens. Só que, como tais obras ''arriscam'' mais na produção, é mais difícil atingir a unanimidade com o sofisticado público desse horário. Segundo Luiz Fernando Carvalho, autor da microssérie ''Hoje É Dia de Maria'', tratar essas produções apenas como diversão é bastante contestável. Para tanto, Luiz Fernando aposta na educação pelos sentidos. ''Todo meu esforço será sempre o de propor uma ética artística verdadeira para a tevê. De
minha parte, ou sigo por este caminho, ou, sinceramente, nada faz sentido'', declara.

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