O autor Benedito Ruy Barbosa já tinha perdido as esperanças de, um dia, ver adaptada para a tevê a minissérie ''Mad Maria''. Desde que ele a escreveu, em 1980, a Globo já tentou adaptá-la em três diferentes ocasiões. O fato de a trama ser ambientada em plena floresta amazônica era um dos motivos que inviabilizava o projeto. ''Sempre soube que seria impossível fazer um espetáculo à altura do livro. As locações são dificílimas e as cenas, muito grandiosas'', justifica ele. Mas um telefonema do diretor Ricardo Waddington, ainda durante as gravações de ''Cabocla'', deu como certa a realização do projeto. Depois de quase 25 anos, a minissérie que narra a construção da ferrovia Madeira Mamoré finalmente sairia do papel em amanhã, como parte das comemorações dos 40 anos da Globo.
Desde que foi lançado, o livro ''Mad Maria'', escrito pelo amazonense Márcio Souza, não chamou a atenção apenas da Globo. Em Hollywood, o ator Tom Hulce, que viveu Mozart no filme ''Amadeus'', de Milos Forman, demonstrou interesse em interpretar o médico Richard Finnegan no cinema. Tanto que até apresentou o projeto à produtora Amblin, de Steven Spielberg. ''Estou muito feliz por 'Mad Maria' ter sido realizada no Brasil. Que estúdio de Hollywood teria um Fábio Assunção, uma Ana Paula Arósio ou um Ricardo Waddington para trabalharem no projeto? Nenhum'', responde, taxativo.
Mas colocar a minisséries nos trilhos não foi tarefa simples. O próprio título vem da junção de ''Mad'' ''louca'' em inglês , termo que ilustra bem o delírio ufanista de desbravar uma região inóspita da floresta amazônica, com ''Maria'', nome dado às locomotivas movidas a lenha e carvão. Escrita em 38 capítulos a um custo aproximado de R$ 440 mil cada , a minissérie narra o malogrado projeto ferroviário de ligar o Porto de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Mato Grosso, a Guajará-Mirim, no Rio Mamoré, em Rondônia. Para viabilizar a produção, o governador do Estado, Ivo Cassol, investiu R$ 1,5 milhão na restauração de uma locomotiva, quatro vagões e oito quilômetros da antiga ''Ferrovia da Morte''. ''Esse investimento é pequeno diante do resultado que vamos ter. O potencial turístico da região vai aumentar, no mínimo, 500% porque a minissérie vai mostrar para o Brasil e o mundo o que Rondônia tem'', acredita Cassol.
Boa parte das gravações em Rondônia aconteceu em Abunã, a 220 km de Porto Velho, em plena floresta amazônica. No local, foram montados cinco containers refrigerados, 20 banheiros químicos e uma UTI móvel. A Fundação Nacional de Saúde disponibilizou médicos, enfermeiros e laboratórios para testes de malária e febre amarela. ''O mais importante é que foram 130 pessoas e voltaram todas as 130. Vivas e com saúde'', ressalva o diretor Ricardo Waddington. Mesmo assim, ele admite que a equipe de produção teve alguns contratempos, como as fortes pancadas de chuva que caíam pontualmente todo final de tarde e as visitas sempre indesejadas dos mosquitos. ''Na verdade, quem traçava o roteiro de gravação eram os mosquitos. Só podíamos gravar das 8h30 às 16 horas Depois disso, era impossível'', admite o diretor.
Na trama, Fábio Assunção ficou com o papel ambicionado por Tom Hulce: o do médico americano que trabalha na enfermaria do acampamento da ferrovia. Estima-se que o número de mortos, entre vítimas de acidentes de trabalho e doenças tropicais, tenha chegado a 6 mil. ''Fiz o bê-a-bá do bê-a-bá com uma médica. Li alguns livros sobre malária e até pensei em assistir a uma necropsia. Depois que vi algumas fotos, desisti'', confessa o ator. Na enfermaria do acampamento, Finnegan conhece e se apaixona pela pianista boliviana Consuelo, interpretada por Ana Paula Arósio. Ela é levada para lá depois de ser encontrada ferida no meio da selva. Dias antes, ela teve a infelicidade de perder o marido e o piano na corredeira do Rio Madeira. ''Fiz questão de gravar a maioria das minhas cenas de perigo. Numa delas, inclusive, contracenei até com formigas. Na hora, tive de esquecer que morro de medo delas...'', entrega a atriz.

mockup