É impossível prever que reação Marta (Lilia Cabral), de ''Páginas da Vida'', provocará ao entrar na casa dos brasileiros. Em uma mesma cena, ela pode comover, expressando a decepção diante da gravidez inesperada da filha, e horrorizar, agredindo a jovem. Ou sensibilizar, relembrando a herdeira morta, e chocar, desprezando a neta com síndrome de Down. Intérprete da megera, Lilia Cabral, 48 anos, também se surpreende com a personagem. Culpada? Inocente? Humana? Nesta entrevista, a atriz responde às questões, conta como é viver a mal-amada e diz que o público está dividido. ''Marta é o retrato de muitas mulheres da classe média, que trabalham duro e se vêem nela''.
Depois de personagens carismáticas, como é fazer a Marta?
Um desafio, como matar um leão todos os dias. Mas é compensador e realizador. Ela mexe com a emoção das pessoas, provoca ódio e pena ao mesmo tempo.
Ela é vilã ou mau-caráter?
Nem vilã nem mau-caráter. É uma mulher sofrida, amargurada e infeliz. Por isso é indesejável ou detestável, como o marido diz.
Para o ator é melhor fazer personagens de caráter duvidoso?
A diferença é que a personagem de caráter duvidoso chama muito mais a atenção. As pessoas querem falar sobre as cenas.
O que dizem sobre a Marta?
Por incrível que pareça, algumas pessoas se aproximam dizendo que a entendem e elogiam o meu trabalho. Outras perguntam como me sujeitei a fazer alguém tão má.
Imaginava que Marta daria tanta repercussão?
Eu acho que o sucesso é devido ao texto maravilhoso do Manoel Carlos. Sem isso, não há personagem que brilhe. Além disso, a Marta é o retrato de muitas mulheres da classe média, que trabalham duro, sustentam a família sozinhas. Muitas se vêem nela e comentam os capítulos, acompanham a novela.
Como é sua rotina? O que mudou com as gravações da novela?
A minha rotina é como a de toda mulher que tem família e trabalha fora: vou ao supermercado, adoro andar na rua, levo minha filha (Giulia, 9 anos) ao colégio. Só que atualmente me dedico mais ao trabalho, estudo muito e deixo a casa sob a responsabilidade de pessoas que trabalham comigo. Mesmo com a rotina corrida, sinto-me feliz.
A Marta assusta as crianças? Giulia tem medo dela?
Não! Até recebi um bilhetinho da melhor amiga da minha filha dizendo que estou fazendo muito bem a minha personagem (risos).
Quais as cenas mais fortes que gravou como Marta?
Toda a sequência em que ela rejeita a neta. São cenas em que não existe violência física, mas verbal. São muito fortes, muito pesadas.
As cenas mexem com você?
Desgastam, mexem e cansam emocionalmente. A emoção precisa ser trabalhada, senão a personagem não passa verdade. Não costumo levar personagens para casa. Lá, tenho minha filha, meu marido. A Marta não me desestabiliza.
Como compôs a Marta?
A inspiração vem de situações que vivi e de pessoas que conheço.
Marta fará mais coisas de arrepiar na segunda fase da novela?
Imagino que sim!
Considera este trabalho o mais importante sua carreira?
Cada personagem tem uma importância única na nossa vida. Mas é claro que a Marta é uma grande personagem.
Que personagens deixaram saudade em você e no público?
A Aldeíde de ''Vale Tudo'' (1988), a Amorzinho de ''Tieta'' (1989), a Gorete de ''Anjo Mau'' (1997), a Sheila de ''História de Amor'' (1995) e a Bárbara de ''Chocolate com Pimenta'' (2003) são personagens que as pessoas lembram muito.

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