Está gravada e editada a primeira cena de sexo entre dois homens na TV aberta brasileira. Apesar de todo o suspense criado em torno da sequência que une o militar Tolentino, personagem de Ricardo Pereira, e Caio Blat na novela das onze da Globo, sabe-se que haverá nu traseiro, que seu tempo no ar será longo, precedido por uma discussão entre o par em questão, e que o conteúdo sexual foi "esvaziado", nas palavras do diretor Vinicius Coimbra, em detrimento do aspecto afetivo. Mas "está tudo ali, a cena tem tudo", prometem Blat e Pereira. Os dois, assim como o diretor e o autor, Mario Teixeira, falaram com exclusividade ao Estado sobre o episódio, previsto para ir ao ar no dia 12, dentro de uma semana, em "Liberdade Liberdade".

Considerada sodomia, a homossexualidade era tratada como crime de lesa majestade, naquele início de século 19. "Naquela época, a sodomia era considerada crime, com enforcamento. Não era nem preconceito, porque o conceito de homossexualidade nem existia, era tratado como ato inatural, como pecado" – explica Teixeira.

Autor, diretor e atores enfatizam sobretudo a questão da intolerância presente na novela em vários aspectos, como na questão da segregação dos negros, na religião, na violência doméstica, na violência contra os insurgentes à Coroa e contra a mulher. "Estou muito feliz por ter feito essa cena e pela Globo bancar isso, não só essa questão da homossexualidade, mas voltar a abordar a questão do negro, a questão da violência contra a mulher, vários casos horrorosos, e isso vem num ótimo momento, em que a intolerância tem se mostrado tão nociva", diz Coimbra.

De todo modo, o ineditismo da situação exigia cuidados extras. "Quando recebi a cena, fiquei pensando como abordar, como fazer com que o público não repudie o casal, é uma cena difícil, como sempre foi na televisão", explica o diretor, que continua: "A intolerância era um caminho, a gente tinha que tirar essa cena da situação homossexual e criar uma identificação com o público. Quando vi a cena, vi uma cena de amor e não de sexo, e tentei colocar o máximo de poesia para que o público torça por esse casal." Ricardo Pereira acredita que a torcida já existe. "As pessoas que acompanham a novela pelo Twitter estão torcendo muito por eles", diz.

Teixeira ressalta que o maior conflito a ser enfrentado pelos dois não virá de forças externas, mas dos próprios personagens, em especial de Tolentino, um militar reprimido que não aceita sua orientação sexual. "O julgamento vai acontecer aos olhos da sociedade. Eles vão sofrer por serem quem são", revela o autor.

Típico comportamento de quem não se aceita nessa posição, Tolentino parte para a agressão sobre as mulheres. "Esse conflito, para ele, é horrível, e ele vai se vingar dessa orientação nas meninas do bordel, na forma como ele maltrata as mulheres, na forma como vai bater em todo mundo, um ato de punição nele mesmo: ele vai tentar descobrir um montão de coisas que façam com que ele esqueça o que aconteceu."

André vai tirar satisfação com o amigo, ao vê-lo com uma mulher, e alguém flagrará os dois juntos. Só o advogado será denunciado e preso. Mais ciente de sua orientação que o outro, não negará nem confirmará o que houve. Não à toa, a sequência teve referências fortes em filmes como O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, que enfocava a paixão entre dois cowboys no Oeste dos Estados Unidos, nos anos 1960. "Mas eu acho que a nossa história está mais para Morte em Veneza", anuncia o autor. "Tem várias referências, a gente pesquisou também Almodóvar e outras fontes, mas depois que nós vimos toda a cena editada e montada, posso te dizer que a nossa é a mais bonita de todas", promete Caio, que conta: "O Ricardo, quando viu, chorou, de tão linda que é a cena."

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