E, de fato, assim se sucedeu e assim era. O sertão virou mar. Um mar de onde aporta ''A Pedra do Reino'', de Ariano Suassuna, pedra e obra fundamental da literatura brasileira - a mesma que serve de base para a atual e elogiada montagem teatral de Antunes Filho, nos palcos de São Paulo. O livro resgata, como poucos, a cultura nordestina. Mais que meramente regional, é universal em seus símbolos de um povo que emergiu de um caldeirão cultural. Entre seus ingredientes principais, a cultura ibérica, a africana e a indígena. Nessa maré, em pleno sertão do Cariri, esse universo salta de trás dos muros de uma medieval ''cidade lápide''.
Em um nada comum dia de filmagens, cercada pela atmosfera e pelos limites desta cidade e embalada pelo compasso do ''Primeiro Mandamento'' que Zbigniew Priesner compôs para ''O Decálogo de Kieslowski'', uma dama medieval canta toadas que lembram o ancestral fado português, enquanto tece a secular renda renascença e espera por seu cavaleiro que, sob o sol cáustico do sertão, surge em seu cavalo feito de resto de fotolito, latinhas e resquícios de uma cultura de outrora. É das caves desse mundo mítico que ressurgem esses e também tantos outros personagens arquetípicos da literatura brasileira.
O ''arqueólogo'' responsável por trazer novamente à tona essa obra seminal é o diretor Luiz Fernando Carvalho que, depois da intrépida empreitada de ''Hoje É Dia de Maria'', revisita, ou como bem ele o diz, reage a obras de grandes autores brasileiros, sejam novos ou consagrados, no projeto da Rede Globo batizado de ''Quadrante''. Dividido em microsséries, mapeia as semelhanças e contradições das culturas de várias regiões do Brasil. Mais que trazer à tona, Carvalho vai levar esse universo para a tão embolorada televisão comercial do Brasil.
A leitura para a TV da história de Dom Pedro Diniz Ferreira/Quaderna está cotada para ter oito capítulos e é fruto da produção independente da paulista Academia de Filmes, com apoio da pernambucana Urso Filmes, e tem orçamento geral de cerca de R$ 3 milhões (por volta de R$ 500 mil por episódio), bancados pela Globo.
Para dar início a essa jornada, nada melhor do que começar com a obra de Suassuna que, após 35 anos de seu lançamento e anos e anos fora de catálogo, foi finalmente relançada pela editora José Olympio. ''A Pedra do Reino'', microssérie, vai estrear em junho de 2007, exatamente quando Suassuna estará completando seus 80 anos.

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