TELEVISÃO - Além das aparências
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Bruna Fioreti<br> Agência Estado 
As sobrancelhas arqueadas não poderiam ser mais propícias a um rosto como o de Beatriz Segal, 81 anos. Altiva, inteligente e assumidamente elitista, a atriz é o que parece: crítica com relação ao que tem ''baixa qualidade''. Entram nessa classificação de integrantes do PT a produções da Record. As opiniões e a trajetória da atriz eternizada como Odete Roitman estão no livro ''Beatriz Segall - Além das Aparências'', da jornalista Nilu Lebert, recém-lançado pela Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Na obra, desmente a amargura com relação ao papel em Vale Tudo (1988) e não deixa pergunta sem resposta.
O que o livro conta sobre você?
Acho que a Nilu Lebert fez um belo trabalho porque conseguiu arrancar boas coisas minhas. Não é bem uma biografia. É um apanhado geral do que eu penso, o que eu sou, etc. Fico até um pouco encabulada porque o livro é bastante simpático a mim e meus defeitos ficaram de fora, o que acho bom porque não gosto dos meus defeitos.
Que defeitos?
Sou preguiçosa, por exemplo. Por isso, trabalho muito, para disfarçar e vencer esse meu lado de preguiça e boa vida. Agora, me dei um ano sabático. Não fiz nada o ano passado.
Qual o seu papel na arte do País?
Fui professora, sou filha de professores e guardei comigo uma preocupação com a obrigação de ensinar. Por isso, tento escolher bem meus textos. Esse meu lado didático às vezes até me traz dissabores, porque tenho vontade de ensinar e a pessoa para quem quero ensinar pode não estar disposta a aprender. E posso até ser chata.
Essa situação acontece muito?
Com menos frequência do que com os que estão interessados. Em geral, gente jovem que tem alguma possibilidade de melhorar aproveita a oportunidade. Isso acontece muito em TV, onde o trabalho é feito sem tempo de ensaiar. As pessoas querem fazer aquele trabalhinho e acabou. Não estão interessadas em aprender. Aliás, quem está interessado em aprender não começa por televisão, porque o teatro te dá a possibilidade de se desenvolver. A televisão não.
Por que caiu a qualidade na TV?
Acho que é um sinal dos tempos. Vivemos em um mundo onde o marketing ganhou tamanha importância que, para quem trabalha hoje em dia em televisão, não interessa desenvolver o trabalho, mas aparecer. As pessoas que vão fazer televisão, a não ser os antigos, estão mais interessadas em sair na capa da revista do que em fazer um trabalho direito. E o público mais cativo da TV, em geral, é o público... de menos capacidade de julgamento quanto à qualidade. Isso pode ser muito mal-interpretado. Não no sentido de que podem dizer que estou desprezando o público. Não é isso. Não desprezo o público porque dependo dele. Só sinto falta de ele estar preparado para dizer não ao que é ruim. Isso não está acontecendo porque não temos uma boa educação, uma boa escola. É isso também que leva a televisão a baixar o nível. A TV, nesses 10, 15 anos, baixou o nível dos programas e a qualidade dos atores.
Estar longe da TV é deliberado?
Não, não é deliberado. No teatro, escolho o que faço, na televisão, não. Não me empenho em fazer televisão, não que não queira. Acho inclusive que o ator precisa dela como divulgação. Porque quando você não está fazendo televisão as pessoas pensam que você morreu. Mas, como não posso escolher, não corro atrás. Cheguei a uma idade em que não posso fazer a mocinha. Sou considerada uma atriz cara, não sou, mas é sempre mais fácil me substituir por outra pessoa.
Isso afeta a vaidade?
Acho que sim, mas devo dizer que, para minha grande felicidade, não. Não fico nervosa nem triste por isso. Sei o que eu fiz e continuo recebendo carinho do público.
No livro, você fala que não fica brava ao falar de Odete Roitman...
Não é que fico brava, não. É que são 20 anos! Depois de 20 anos as pessoas ainda me perguntam: ''Quem matou Odete Roitman?''.
Perguntam isso sempre?
Perguntam. Entro em uma loja, em um restaurante... e as pessoas: ''Boa tarde, dona Odete''. Mas isso não gostaria que você colocasse porque estimula. É realmente muito chato. As pessoas ficam repetindo a mesma coisa, a sensação que me dá é que não fiz mais nada. E eu fiz.
E o que você diria para quem pensa que Odete Roitman ''matou'' a Beatriz Segall na televisão?
Digo não, não matou... Como assim?
No sentido figurado, um grande papel que teria suprimido outros...
Não. Fiz muita televisão depois disso. Não tem nada a ver.
Apesar disso, o balanço é positivo?
Não sei porque as pessoas e a imprensa inventam esse negócio! Foi o melhor papel da minha vida, um dos melhores papéis que alguém já teve na televisão. Quem teve um papel que dura 20 anos? E é um papel maravilhoso de fazer. E eu não me dava muito conta disso na ocasião, da repercussão, porque era um papel tão grande que eu não saía de casa. O sucesso era tão grande... Atores, figurinistas, todo mundo estava contente. Foi uma coisa deliciosa de fazer.
Você teve um trabalho na Record...
É... (leva as mãos ao rosto)
Não quer falar sobre isso?
Não, quero esquecer aquilo.
Mas o que diz dessa passagem?
Não tinha bom texto, o elenco era fraco, não foi um prazer. Não foi nada prazeroso. O ambiente até que era bom. Mas não gostei, sobretudo do papel, que era uma bobagem. Era uma bobagem.
Não voltará?
Não. Eles nem vão me chamar, pelo tanto que eu reclamava (risos).
Sempre expressa opiniões assim?
Nem sempre. Mas tenho uma tendência a usar da minha idade, do meu tempo de trabalho para dizer coisas que outras pessoas não podem dizer. Digo que o texto é ruim em alto e bom som no estúdio.
Também se sentiu na obrigação de falar o que pensa na política?
Quando as pessoas acham que podem usar a minha figura como meio para colocar algum problema ou alguma solução, não me incomodo de ser usada, não.
Aquele ''medo'' (da vitória de Lula, que declarou nas eleições de 2002) se confirmou?
Acho que sim. Houve nesse período que o PT subiu ao poder várias tentativas de cercear a imprensa, de cercear as artes, de dominar alguns setores, houve tentativas nesse sentido que os jornais publicaram. Acho que isso comprova que era para ter medo mesmo. Principalmente depois que o PT me decepcionou tanto. Acho que nunca tivemos um partido no poder com tanta falta de ética e honestidade.
E a atuação do ministro Gilberto Gil?
O Ministério da Cultura praticamente não existe. Tivemos greves de meses sem que o ministro tomasse providência. Ele não tem tempo, ele precisa cantar fora do Brasil.
E o papel do governo na educação?
A queda na educação não é uma questão deste governo. Agora, que este governo não faz questão de melhorar essa parte, não faz mesmo. O simples fato de não importar mais se você fala mal o português porque chegou lá é um crime contra o brasileiro. Além disso, há um desprezo pela cultura e uma preocupação em denegrir o que é elite, quando as elites são importantes no sentido de produzir melhorias na cultura. Sem grandes cabeças, elites educadas, de cultura, claro que o País anda para trás. E isso é denegrido hoje. Nesse governo, há essa mania de endeusar o popular sem dar a ele o necessário desenvolvimento - isso é muito importante - a que ele tem direito. É um atraso de vida para o brasileiro.
Por quê?
Porque hoje é feio, pedante, dizer que prefere uma pessoa inteligente e culta. É politicamente incorreto.
Você é ''acusada'' de ser elitista?
Não. Sou tratada como. Por muito tempo, fiquei meio acuada com isso. Hoje, sou declaradamente elitista. Gosto de tudo o que é bom, bonito, inteligente, do progresso. Sou totalmente elitista, sim, admitindo...


