A minissérie ''Amazônia - De Galvez a Chico Mendes'' é o projeto mais antigo de Glória Perez. A autora acreana garante que mesmo antes de estrear com a trama ''Eu Prometo'', na Globo, em 1983, já queria homenagear seu estado natal. Esperava apenas ter acesso a equipamentos mais leves, capazes de funcionar com mais agilidade na mata. Com câmaras mais compactas foi possível gravar em locações no Acre e no Amazonas, como em rios e igarapés. A trama da Globo, que estréia na próxima terça-feira, conta a história do Acre a partir da exploração da borracha com a colonização da Amazônia em 1899 até 1988, ano em que o seringalista Chico Mendes foi assassinado. A minissérie de 55 capítulos mostra os divergentes pontos de vista da vida no seringal e conta a história dos três maiores ''heróis'' da região em três diferentes fases da trama: Galvez, vivido por José Wilker, Plácido de Castro, de Alexandre Borges, e Chico Mendes, interpretado por Cássio Gabus Mendes. ''Sempre quis contar essa história do Brasil para os brasileiros e levantar a discussão sobre o destino da Amazônia'', explica Glória.
Na trama dirigida por Marcos Schechtman, Glória apresenta um estado marcado pelo contraste entre o luxo e a pobreza no mais glamouroso período que o Norte do Brasil já viveu. A minissérie vai exibir o esplendor da riqueza obtida pelos ''coronéis'' no eldorado dos seringais, que não se incomodam em acender charutos com as então valiosas notas de 100 mil réis. E também será mostrada a vida dos milhares de nordestinos, que seguiam para a região em busca de trabalho e melhores oportunidades de vida.
A história da família do Coronel Firmino, dono de um dos maiores seringais da floresta, costura a trama com a saga de sua família abastada. No contraponto, o seringalista Firmino, de Jackson Antunes, mostra o sofrimento dos empregados. ''Os coronéis acham que estão certos, pois dão emprego aos que morrem de fome no sertão'', justifica José de Abreu, já imbuído da personalidade de seu personagem.
Mas em meio à luta dos seringueiros, a história será entremeada por muitos romances e lendas. A mais célebre delas é a do boto que virava homem e engravidava as moças em noites de lua cheia na beira do rio. Delzuíte, personagem de Giovanna Antonelli, engravida do requintado Tavinho, de Paulo Nigro, filho do Coronel Firmino, mas diz que o pai é o boto. A atriz confirma a fama de assanhados dos mamíferos. ''Passei oito dias nadando com botos selvagens. Eles não são como os golfinhos da Disney. Me mordiam e chegaram a me marcar inteira'', diverte-se Giovanna.
Em Manaus, longe dos seringais que foram cenário para diversas batalhas da trama, a história exibe o charme da ''belle époque'' no início do Século XX. O lucro obtido com o látex construiu uma capital sofisticada em meio à floresta. Por isso, será retratada a efervescência cultural da época, com a edição de jornais editados em vários idiomas e a presença de diversas companhias de ópera e de teatro. Numa delas, a gananciosa Lola, personagem de Vera Fischer, reencontra o amigo espanhol Luís Galvez Rodrigues. O culto e afortunado diplomata abre um cabaré para Lola e se torna presidente do Acre após vencer a disputa do território com a Bolívia. ''Ele foi um estadista, um visionário que duelava como ninguém'', anima-se José Wilker.
Em um dos confrontos do líder, Galvez conquista a envolvente espanhola Maria Alonso, uma cantora de ópera vivida por Christiane Torloni. ''Essa personagem é diferente de tudo que já fiz. É um reencontro com minhas origens porque sou descendente de espanhóis'', comemora Torloni.
Todos os romances, batalhas e lendas sobre a região serão misturados com histórias fictícias para contar uma passagem pouco conhecida da História do Brasil. Do início da exploração dos seringais até o desmatamento da Floresta Amazônica, que culminou com o assassinato do seringalista Chico Mendes, o folhetim traz à tona a discussão sobre a preservação da Amazônia. ''A minissérie poderia se chamar 'Como a Amazônia se tornou brasileira'. É a produção mais rica de imagens e histórias que já fizemos. Grande parte das cenas foi regida pela natureza'', valoriza o diretor Marcos Schechtman.
Por trás das cenas
A minissérie ''Amazônia - De Galvez a Chico Mendes'' impressiona pelos números. Foram 20 toneladas de equipamentos levados para locações no Acre e no Amazonas. Além disso, 16 mil peças de figurino foram confeccionadas para as externas na região Norte do país, onde foram gravadas 350 cenas. No Acre, a produção da trama contratou 270 profissionais para trabalhos de marcenaria e carpintaria, entre outros. Durante 72 dias, a equipe gravou várias cenas na região, que contavam com até 700 figurantes. Para gravar as tomadas de guerra, a equipe de produção chegou a confeccionar 400 sacos de palha de arroz para as trincheiras. Já na cidade cenográfica de 2 mil metros quadrados construídos, foram utilizados mais de 500 metros cúbicos de madeira reflorestada. ''Sofremos as mesmas dificuldades operacionais dos colonizadores da Amazônia'', exagera o diretor Marcos Schechtman.
Mas no Rio, na cidade cenográfica no Projac, com 5.500 metros quadrados, os números não ficam aquém. São 38 cenários construídos apenas para a primeira fase da minissérie. ''O mais legal é que a cidade cenográfica que construímos no Acre vai virar um museu da História do Acre quando terminar a minissérie. Será uma exposição permanente'', comemora a cenógrafa Juliana Carneiro.

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