Uma mistura do que Regina Casé e seus dois principais parceiros na TV, o antropólogo Hermano Vianna e o diretor Guel Arraes, já fizeram, de ''Programa Legal'' (1999) a ''Mercadão de Sucessos'' (2005), estréia hoje em ''Central da Periferia'', uma investigação das benesses em comunidades pobres do país.
''Nós fazemos televisão e, por isso, somos a periferia da cultura'', diz a apresentadora do programa que será exibido após ''Caldeirão de Huck''. ''É quase um programa de inclusão das elites. Aquelas pessoas não se sentem excluídas, pois fabricam sua própria cultura'', acredita.
A periferia, claro, tem cidadãos do ''bem'' mas também é o lugar onde a criminalidade bate recordes e o tráfico, em grande parte das favelas, influencia na vida dos moradores. O que eles pensam a esse respeito? ''Vimos que nem tudo era legal, mas que também havia algo bom para combater o que não era'', diz Arraes. ''Mudou a nossa postura política. É evidente que nunca fomos doidos ou alienados de achar que tudo estava uma maravilha. Fomos apenas afirmativos'', conta Regina Casé. ''Fazer televisão para a gente sempre foi um compromisso político'', completa Vianna.
''Queríamos que fosse um programa de auditório'', afirma Arraes. ''Central da Periferia'' (o nome, em si, ambíguo) começa num palco montado diante de uma grande platéia para apresentar artistas locais e populares; depois roda pelas ruas e casas das favelas em busca de depoimentos sobre o dilema dignidade-exclusão dos moradores. ''Tudo o que é identificado como popular é visto de maneira pejorativa. Acho que ninguém é obrigado a gostar de música brega, mas não pode ignorar movimentos tão grandes que acontecem no Brasil'', diz Casé.
Ela reclama do tempo na TV. ''Se a gente mostrasse somente o que era ruim, não sobraria espaço para as ações legais. Agora, podemos mostrar outros lados também. O espaço que a periferia tem na mídia é criminalizado; a pessoa aparece se o barraco cair em cima ou se ela for morta, envolvida em tragédias'', afirma.

mockup